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id da página: 9812 Climacus|JOÃO CLÍMACO A ESCADA DO CÉU

Escada Santa IV

Antes de tudo, convém que somente a nosso juiz confessemos nossas culpas; e estejamos aparelhados para confessá-las a todos, se por ele assim for mandado, porque as chagas descobertas à toda a luz podem não corromper-se nem afistular-se, como aconteceria se as tivéssemos encobertas ou secretas. Uma vez, vindo eu a um mosteiro, tive ocasião de observar um juízo de um excelente pastor que o governava. Um ladrão veio tomar hábito; o bom pastor e sapientíssimo médico mandou que o deixassem estar com toda a quietação e descanso por espaço de sete dias, afim de que, durante este tempo, visse o estado e a ordem do mosteiro. Passado esse prazo, chamou-o o pastor a sós, e perguntou-lhe se lhe parecia bem morar naquela companhia; e, como ele respondesse, com toda a sinceridade, que sim e de muito boa vontade, o pastor tornou-lhe à outra pergunta, isto é, perguntou-lhe que males havia cometido no século; e, como pronta e discretamente os confessasse todos, para melhor prová-lo, disse o Padre: — Quero que todas essas culpas confesses em presença de todos os Religiosos. Ele, como verdadeiro penitente e como homem que aborrecia de coração todas as suas maldades, pondo de lado toda a humana vergonha e confusão, respondeu que assim o faria e que, se ao Padre aprouvesse, as diria em voz alta mesmo no meio da praça de Alexandria. Reunidos, pois, todos os Religiosos (que eram em numero de duzentos e trinta) na igreja, em um dia de Domingo, lido o Evangelho e acabados os mistérios divinos, mandou o Padre que trouxessem aquele réu. Foram buscá-lo alguns Religiosos, que o apresentaram de mãos atadas atrás, revestido de um aspérrimo cilício, coberta de cinza a cabeça, e disciplinando-o mansamente entre as espáduas; e, ao chegar ele à porta da igreja, mandou-lhe aquele sagrado Padre, com voz terrível, que parasse, porque não era digno de transpor os umbrais daquela porta. O réu, ferido com o golpe desta voz proferida com tão grande conselho e sabedoria, caiu prostrado em terra, tremendo de pavor e debulhado em lágrimas. Diante deste doloroso espetáculo ficaram todos estupefatos, e prorromperam em pranto e gemidos; pois nenhum deles entendia do que se passava. Então, aquele padre e maravilhoso médico mandou-lhe que dissesse em público todos os pecados que havia cometido; e ele obedeceu, fazendo com toda a humildade, e com grande espanto dos presentes, a narração minuciosa de tudo, sem deixar de dizer todas as maneiras de homicídios, feitiçarias, furtos, e outras coisas que não é licito escrever. E, depois de haver-se assim confessado, mandou o Padre tonsurá-lo e recebê-lo na companhia dos Religiosos. Maravilhado eu da sabedoria deste santo Padre, perguntei-lhe depois, em reserva, porque tinha feito tão extraordinária forma de juízo; e ele, como verdadeiro médico, me disse que a fez por duas causas: a primeira, para livrar aquele penitente da eterna confusão mediante aquela presente confusão; a segunda, para que alguns Religiosos, que lá se achavam e que ainda não tinham confessado inteiramente suas culpas, se movessem por aquele exemplo à completa confissão, sem a qual ninguém será salvo.

Outras muitas coisas admiráveis e dignas de memória, vi naquela santíssima congregação e no pastor dela, das quais estou habilitado a contar-vos algumas, porque não pouco tempo ali estive, atendendo grande e continuamente à vida e maneira de convivência daqueles anjos da terra, e maravilhando-me de ver como imitavam aos do Céu. Primeiramente, eram entre si muito unidos por um estreitíssimo vinculo de caridade, e (o que é muito mais de maravilhar) amando-se tanto como se amavam, não havia entre eles atrevimento nem confiança demasiada, nem soltura de palavras ociosas; trabalhavam, com muito estudo, no empenho de não se escandalizarem uns aos outros, nem serem uns ocasião de pecado ou de mal para outros. Depois, se acontecia que algum manifestasse rancor contra outro, o santo pastor desterrava-o, como a homem condenado, para outro mosteiro. Uma ocasião, tendo um deles amaldiçoado a outro, o santo pastor mandou que pusessem aquele fora da companhia, dizendo que não era razoável sofrer no mosteiro demônios visíveis e invisíveis. Vi eu naqueles santos coisas grandemente proveitosas e dinas de admiração. Vi uma companhia de muitos, que com o vínculo da caridade eram todos um só em Jesus Cristo, e todos mui exercitados em obras da vida ativa e contemplativa; pois de tal modo se despertavam e aguilhoavam uns aos outros para as coisas de Deus, que quase não tinham necessidade de ser admoestados pelo pai espiritual, chegando ao ponto de ter entre si ordenadas certas maneiras de exercícios e admoestações a propósito. Acontecia, por exemplo, que algum deles, na ausência do prelado, proferia qualquer palavra ociosa, ou danosa, ou de murmuração: o irmão que esta ouvisse fazia-lhe secretamente um convencionado sinal, para que olhasse por si e moderasse suas palavras; e se, por ventura, o admoestado não via ou não atendia, então o outro se prostrava em terra diante dele, e logo se ia. Quando algumas vezes se juntavam para conversar, toda a prática versava sobre a memória da morte e do juízo final.

Não quero passar em silêncio a virtude singular do cozinheiro daquele mosteiro. Observando eu que ele, perseverando em tão contínua e constante ocupação, estava sempre mui recolhido, e que, além disso, havia alcançado à virtude do pranto, roguei-lhe humildemente que me quisesse descobrir como tinha merecido esta graça. Importunado por meus rogos, respondeu-me em poucas palavras: — Nunca pensei que servia a homens, mas a Deus; sempre me tive por indigno de quietude e repouso; e a vista deste fogo material me faz sempre chorar e pensar no ardor do fogo eterno.

Quero contar outras virtuosas singularidades, que vi entre eles. Percebi que, nem mesmo assentados à mesa, cessavam dos espirituais exercícios, e usavam de certos sinais com que uns aos outros se exortavam à oração, mesmo enquanto estavam comendo; faziam isto, não só quando estavam à mesa, mas também quando por acaso se encontravam, ou quando algumas vezes se ajuntavam. Se acontecia que qualquer deles cometesse alguma falta, vinham os outros pedir-lhe, com toda a instância, que lhes desse cargo de dar conta daquela culpa ao pai espiritual e de receber a penitência dela; e, como aquele grande varão conhecesse esta piedosa contenção de seus discípulos, usava de mais branda correção, e, as mais das vezes ou quase sempre, não queria averiguar nem fazer pesquisa do autor do delito. Se a algum deles acontecia estar porfiando com outro irmão, aquele que acaso por ali passava, prostrando-se a seus pés, assim os amansava; se, por ventura, percebia que guardavam lembrança de alguma injúria, logo fazia-o saber ao padre que, depois do abade, tinha cargo do mosteiro, e trabalhava com todo o estudo para que não se pusesse o sol sobre a sua ira; e se, todavia, continuassem endurecidos e porfiados, não tinham licença para comer até que um ao outro se perdoassem; por fim, se não quisessem submeter-se, expeliam-nos do mosteiro.

Muitos daqueles santos varões eram assinalados e admiráveis em vida ativa e contemplativa, e em discrição e humildade. Vi ali uns velhos reverendos, de mui venerável presença, os quais estavam como meninos, aparelhados para obedecer e correr para uma parte ou para outra, merecendo grande glória com este exercício de humildade. Vi alguns que, havia cinquenta anos, militavam debaixo da obediência, os quais, perguntando-lhes eu que consolação, ou que fruto, haviam alcançado de tanto trabalho, uns me respondiam que, por tal meio, tinham chegado ao abismo da humildade, com a qual estavam livres de muitos combates do inimigo, e outros me respondiam que, por aí, chegavam a perder o sentimento das injúrias e desonras. Vi outros daqueles varões dignos de eterna memória, cobertos de cabelos brancos, porém com rostos angélicos, os quais chegaram a uma profundíssima inocência, cheia de simplicidade, alcançada com grande fervor de espírito e temor de Deus. Primeiro se acabarão os meus dias de vida que eu possa explicar todas as virtudes que ali observei; e, como a santidade daquela gente chegava até o Céu, tenho por melhor adornar esta doutrina com os exemplos de seus trabalhos e virtudes, do que com a baixeza das minhas palavras.