Na praia mais recuada daquele mar estava Utnapishtim, sentado, descansando. Erguendo o olhar para o horizonte, viu uma estranha visão: lá estava o barco do barqueiro e, de pé na proa, um homem forte, quase um deus, com os braços erguidos como se fossem um mastro e as vestes drapejando ao vento. "Quem é este que chega?" perguntou Utnapishtim a si mesmo. "Não é nenhum criado meu. A carne dos deuses está em seu corpo, mas o desespero lhe habita o coração." Em seguida, quando o barco chegou à praia, gritou:
— Como te chamas tu, que vens usando as peles dos animais selvagens, com o rosto riscado de cinzas e o desespero no coração? Por que fizeste a difícil passagem com os braços erguidos como um mastro? Não foi o cansaço que trouxe fastio aos teus ossos; conta-me qual é a razão da tua vinda.
Ao descer à praia, Gilgamesh falou:
— Sou Gilgamesh, da Casa de Anu, Rei de Uruk. Fiz uma longa jornada; por que não estaria eu cansado e exausto da viagem? Por que não estariam minhas faces desfiguradas e meu rosto pesaroso? Por que não estaria meu coração cheio de desespero e meu semblante cheio de angústia? Enkidu, meu irmão e companheiro, está morto. Era o machado a meu lado, a força do meu escudo: juntos matamos o monstro Hum-baba, juntos matamos o Touro do Céu. Derribaram-no, porém, as mãos dos deuses, e os juízes do mundo dos mortos, os Annunaki, levaram-no para baixo. A beira dele me sentei e vi a morte insinuar-se-lhe nos membros, e fiquei com medo por mim. Eu, Gilgamesh, Rei de Uruk, que matou Humbaba e o Touro do Céu, tenho medo de morrer.
Vim à procura de Utnapishtim, o Distante, que os deuses salvaram do Dilúvio, que os deuses instalaram em Dilmun a fim de viver para sempre: ele de certo conhece o segredo da vida eterna, pode, seguramente, responder às perguntas que me excruciam, por certo, me dirá o que preciso fazer para que o destino do meu amigo não seja o meu.
Disse-lhe Utnapishtim:
— Que é o que dura para sempre? Acaso edifica o homem uma casa destinada a perdurar para sempre? São os contratos assinados para todo o tempo? Porventura dividem os irmãos a sua herança a fim de guardá-la para sempre? Persiste o ódio para sempre na terra?
Que é o que dura para sempre? Dura para sempre a maré enchente do rio? O rosto da libélula vê para sempre o rosto do sol? Desde os dias de antanho não há permanência. Como são parecidos os adormecidos e os mortos! Dir-se-ia que a morte é a imagem do sono, e o sono a imagem da morte. Os Annunaki se reúnem e, com Mammetum, a deusa do destino, decretam a vida e a morte de todas as criaturas. A vida do homem se desdobra à proporção que ele a vive, mas não se revela o dia da sua morte.
Irado, Gilgamesh recalcitrou:
— Percorri um longo caminho, e para quê? Pensei encontrar um homem preparado para o combate, um guerreiro. Em vez disso, encontro um velho cansado, refestelado ao sol. E, todavia, estás aqui. Dize-me, então, como foi que vieste a entrar na companhia dos deuses e a possuir a vida eterna?
Disse Utnapishtim:
<quote>— Revelar-te-ei um mistério.
Contar-te-ei o segredo dos deuses.
Falar-te-ei, Gilgamesh,
De um triste mistério dos deuses:
De como, certa feita, tendo-se reunido,
Resolveram inundar a terra de Shuruppak.
Ea, de olhos claros, sem dizer nada ao pai, Anu,
Nem ao Senhor, o grande Enlil,
Nem ao distribuidor de felicidade, Nemuru,
Nem mesmo ao Príncipe do reino subterrâneo, Enua,
Chamou a si o filho de Ubara-Tutu;
E disse-lhe: "Constrói um barco para ti."<quote>
Em seguida, contou Utnapishtim a Gilgamesh como viera a sobreviver ao "Dilúvio antes do Dilúvio"; como, por seis dias e noites, o barco flutuou sobre o mar e acabou descansando no topo de uma montanha; como os deuses se abrandaram e levaram-nos, a ele e à esposa, e os instalaram muito longe, na terra de Dilmun.
— Quanto a ti, Gilgamesh — concluiu Utnapishtim —, quem convocará os deuses para que se reúnam por tua causa? Quem defenderá o teu caso para poderes encontrar a vida que procuras? Mas, vamos, façamos primeiro um teste. Se vingares prevalecer contra o sono durante seis dias e sete noites...