Ouvindo isso, Gilgamesh seguiu o caminho que levava ao interior da montanha. Quando entrou na senda, a treva fechou-se em torno dele. Gilgamesh percorre uma légua; densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Gilgamesh percorre duas léguas; densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Gilgamesh percorre três léguas; densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Gilgamesh percorre quatro léguas, cinco léguas, seis léguas; densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Depois de haver percorrido sete léguas, densa é a treva e não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Gilgamesh percorre oito léguas e desfere um grande grito: pois densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Gilgamesh percorre nove léguas e agora sente o vento norte soprar-lhe no rosto; mas densa é a treva, não há luz: não pode ver nada à sua frente e nada atrás de si. Depois de haver percorrido dez léguas, o fim está próximo. Depois de haver viajado onze léguas, o brilho do nascer do sol incide sobre ele. Depois de haver percorrido doze léguas, irrompe da montanha e a luz de Shamash jorra sobre ele.
Dessa maneira, Gilgamesh encontrou o caminho para o jardim dos deuses, onde as árvores são de ouro, os galhos de prata e os frutos de gemas preciosas. As folhas são lápis-lazúli, e bagos de cornalina pendem sobre as vides. Cansado e exausto, Gilgamesh sentou-se na praia, a cabeça inclinada sobre os braços. Shamash viu-o, viu o Rei de Uruk, viu os labores e a exaustão do homem vestido com peles de animais selvagens. E Shamash condoeu-se do homem. Postou-se diante de Gilgamesh e disse:
— Gilgamesh, para onde estás correndo? Não encontrarás a vida que buscas.
Gilgamesh ergueu a cabeça. Olhou para o deus e disse:
— Jornadeei por muito tempo na escuridão, no ermo e nas sendas da montanha. No escuro tenho laborado procurando Utnapishtim, o Distante. Deverei, porventura, cobrir a cabeça de terra e dormir o resto dos meus anos? Se bem eu possa não ser melhor que um homem morto, deixa-me, ao menos, olhar para a luz do sol.
Com sua tigela de ouro, ela está sentada no jardim à beira do mar: Siduri, a taberneira, fazedora de vinho. À sua porta chegou Gilgamesh: de longe ela o viu chegar. E pensou: "Quem é este que vem vestido de peles de animais selvagens? Um ladrão, seguramente, é ele, um bandoleiro que conseguiu chegar até aqui". E levantou-se para trancar a porta. Entretanto, no instante em que a tranca ia fechar-se, Gilgamesh enfiou o pé na porta e gritou:
— Mulher, taberneira, fazedora de vinho, por que me trancas a porta? Espatifarei teu portão, derrubarei tua porta, pois sou Gilgamesh, Rei de Uruk. Doze léguas no escuro percorri para chegar aqui. Não podes barrar-me o caminho!
Em seguida, empurrando a porta para o lado, entrou no pátio. Disse-lhe Siduri:
— Por que vieste para cá? Procuras o vento? Teu rosto está riscado de cinzas e o desespero te habita o coração.
Gilgamesh replicou:
— Por que não estaria eu cansado e exausto da viagem? Por que não estariam minhas faces desfiguradas e meu rosto pesaroso? Por que não estaria meu coração cheio de desespero e meu semblante cheio de angústia? Há amargura em meu coração, pois Enkidu, meu irmão e companheiro, está morto: derribaram-no as mãos dos deuses, e os juízes do mundo dos mortos, os Annunaki, o levaram para baixo. Ao pé dele me sentei e vi a morte insinuar-se-lhe pelos membros, e fiquei com medo por mim.
Agora procuro Utnapishtim, o Distante, que os deuses salvaram do Dilúvio, que os deuses instalaram em Dilmun a fim de viver para sempre: ele de certo conhece o segredo da vida eterna, pode, com certeza, responder às perguntas que me excruciam, de certo me dirá o que preciso fazer para que o destino do meu amigo não seja o meu. Eis aí por que meu rosto é o de quem fez uma longa viagem, eis aí por que meu rosto está queimado pelo calor e pelo frio.
Disse-lhe Siduri:
— Gilgamesh, para onde corres tu? Não encontrarás a vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem, destinaram-lhe a morte, e reservaram a vida para si. Quanto a ti, Gilgamesh, enche a barriga de comida e vinho, sê alegre dia e noite, e dança, entrega-te aos prazeres e jubila. Veste roupas novas, banha-te em água fresca, trata com ternura a criança que te segura a mão, e torna feliz a esposa com o teu abraço: esse é o destino do homem.
Gilgamesh continuou sentado, em silêncio, por muito tempo antes de falar:
— Mulher, como posso jubilar-me com a vida quando Enkidu, meu irmão e companheiro, está morto? 0 que ele é agora, sê-lo-ei algum dia. Devo esquecer minha sina? Jovem mulher, tu te sentas à beira do mar e lhe contemplas o coração: dize-me agora, qual é o caminho para Dilmun, o caminho para Utnapishtim, o Distante, para que eu possa pedir-lhe o segredo da vida eterna? Dá-me, ó, dá-me as instruções para a passagem sobre o oceano, ou terei de continuar vagueando no ermo
Disse, então, Siduri:
— Gilgamesh, Gilgamesh, não há como atravessar o Oceano da Morte. Quem quer que tenha vindo, desde os tempos mais remotos, não cruzou aquele mar. O Sol em sua glória cruza o Oceano, mas quem, além de Shamash, pode efetuar a passagem? Profundas são as águas da morte, e que farás tu quando chegares a elas? Vejo, porém, que em teu coração estás determinado a ir, seja qual for o risco. Portanto, eu te ajudarei.
Desce às matas à beira do mar. Lá encontrarás Urshanabi, o barqueiro de Utnapishtim. Com ele estão as coisas sagradas, os Uns de Pedra. Encontra Urshanabi onde ele, sentado, entalha a serpente da proa do seu barco, olha-o bem e deixa que ele te veja. Talvez te ajude a cruzar as águas. Se não quiser fazê-lo, terás de voltar. Sem a ajuda dele não há como chegar à terra de Dilmun.