ZOLLA, Elémire. Dal tamburo mangiai, dal cembalo bevvi...: lo stato mistico e altre questioni di antropologia spirituale. Venezia: Marsilio, 2021
As definições do estado místico são listadas em dicionários filosóficos e enciclopédias, em tratados teológicos: a mais concisa é: “Conhecimento experimental de Deus”. O uso do termo, no entanto, é confiado a regras secretas e simplistas. Como campo de gravitação de sentimentos obtusos, a palavra atrai uma série de significados diferentes, dependendo das várias falhas da cultura petrificada.
Na cultura de massa, no nível mínimo, é sinônimo de sentimentos confusos, embora agradáveis, de uma aproximação complacente e afetada com as instituições eclesiásticas; envolve dois tipos de gestos: olhos baixos e lacrimosos, lábios entreabertos, cabeça reclinada, banalidades sussurradas ou sorriso forçado, olhos cintilantes. Nostalgias, desfalecimentos, compunções, a inserção mais ou menos fácil, sempre encenada, em uma instituição eclesiástica: isso é o que o termo pode estenografar para os consumidores das mercadorias culturais da qualidade obviamente mais trivial.
Na média cultura, o termo é considerado elogioso por uma certa camada de consumidores: mulheres burguesas que alternam viagens a Assis e leituras de místicos com *love affairs* acompanhados por declamação interior, homossexuais análogos, frequentadores de seitas supersticiosas, seguidores de partidos de direita com tendências sanguinárias. Na mesma cultura corrente, o termo é considerado uma marca de opróbrio pelos consumidores de ideologias ligadas aos sindicatos ou às empresas neocapitalistas.
O termo é considerado embaraçoso, para ser confinado a certos fenômenos já aceitos e neutralizados no cânone histórico eclesiástico, por protestantes “desmitologizados”, por católicos que precisam se apresentar a um eleitorado ou a um público de empresários ou a funcionários avessos a atritos com a ideologia implícita em seu trabalho.
A chamada alta cultura está estritamente ligada às camadas inferiores, o ápice pesa sobre a base que o sustenta. Na história recente da cultura italiana, a acepção favorável à mística é o sinal de reconhecimento de uma parte sua desaparecida, nacionalista, e designa: orgulho pela incapacidade de análise conceitual, ornato enjoativo com peças de antiquariato linguístico arrancadas das igrejas, prazer de se conformar à disciplina militar. Entre os herméticos, o pudor do termo depende do abuso anterior, mas a inaptidão para organizar o pensamento, para a análise clara e distinta das ideias, o prazer extraído do mero som das palavras indicam que o termo “místico” não é por eles rejeitado, mas apenas deixado de lado, não provoca repugnância, mas apenas abstenção do uso direto.
O reflexo condicionado de um voto desfavorável é comum a quantos hasteiam, em vez de um nome, o distintivo de “marxistas” ou “neopositivistas” (se não seguem Wittgenstein); para eles, o termo é sinônimo de irracionalidade, que pode significar: não verificabilidade por experimento ou por testemunho social, defeito de documentação adequada, recurso abusivo aos sentimentos, recusa de prova, reivindicação de faculdades intuitivas em contradição com os processos conceituais, apelo a constantes imodificáveis do homem e da natureza, confusão de conceitos e muitas outras coisas ainda; nos casos mais sinceros, é até mesmo mera indicação dos próprios adversários políticos ou acadêmicos.
Para boa parte dos significados atribuídos à palavra, há uma concórdia extraordinariamente coral em defini-la mal, qualquer que seja o voto de condenação ou aprovação estampado na definição.
Para os marxistas, o misticismo ou é anárquica incapacidade de canalizar a revolta no único sulco que a história oferece, portanto colaboração de má vontade com a sociedade a ser modificada, ou simples apêndice de uma instituição eclesiástica; são definições falsas, mas sua mira é justa, pois o místico seria tolerável apenas no Reino da Liberdade, do qual, aliás, seria o habitante natural, enquanto irrita e causa incômodo quando se quer edificar a liberdade exasperando o assujeitamento. É verdade que uma certa relação entre mística judaica e marxismo foi buscada por Walter Benjamin, e que Lucien Goldmann propôs por sua vez uma avaliação da mística jansenista como a única revolução concebível na falta de um proletariado preso a um partido (no qual o comunista reconhece uma figura paterna). As posições de Benjamin e Goldmann, juntamente com as análogas de Bloch, foram as únicas exceções à condenação da mística como ideologia.
Para os pensadores de outro tipo, “progressistas”, mística é toda confiança mágica em instituições ou líderes de instituições, tanto que eles até acusam os militantes comunistas de devoção mística. Reconduzindo a aversão dos progressistas a maior clareza, alcança-se estas suas bizarras definições: é mística toda atitude que impeça a crítica, ou então místico é o desprezo pela corporeidade, pelo plano carnal, a tendência a idealizar coisas incongruentes e a decorá-las com as aparências retóricas do sublime: outros modos de evitar a crítica. Mas por que identificar a crítica radical de cada coisa com a inibição da crítica?
Se se observam as associações inconscientes da palavra tanto nos difamadores quanto nos apologetas, vê-se que “místico” tem uma tonalidade contrária a “viril”. Por isso, os seguidores femininos de ideologias autoritárias preferem a mística, na medida em que ela supera a contradição, podem se sentir viris e místicos ao mesmo tempo. Não ousando reconhecer que assumem uma atitude feminina em relação à instituição ou a quem a dirige, inconscientemente a exaltam com esta transposição terminológica. Não de forma diferente os progressistas: eles pensam que o misticismo, contra toda razoabilidade, leva à acquiescência em relação aos líderes mágicos da multidão ou da tradição falsificada (lembra-se que a resistência ao nazismo no grupo da Rosa Branca se nutriu de leituras de místicos, apenas para citar um único caso de um ambiente que desencorajava eficazmente as revoltas).
Para ler os místicos, é preciso ter não apenas a mente livre dessas tolices coaguladas em estereótipos, mas também isenta das associações inconscientes.