I
A consciência conceituada é convencionalmente designada por uma variedade de pares de contrapartes interdependentes: por exemplo, “Céu (o Reino dos Céus)” e “Terra”, “Nirvana” e “Samsara”, “Noumenon” e “Fenômeno” — os dois primeiros de natureza religiosa e antiga, o último moderno e filosófico. Metafisicamente, pode-se acrescentar um quarto: “Intemporalidade” e aquilo que é “Temporal” ou sujeito ao tempo.
Aquilo que somos, com base na consciência e na sensiência, é intemporal, e aquilo que parecemos ser — nossa aparência objetiva, com a qual, infelizmente, somos condicionados a identificar-nos — é temporal. Isso equivale a afirmar que aquilo que “nós” representamos subjetivamente é “atemporal”, e que aquilo que pensamos ser é “tempo”.
“É tempo”? Sim, pois aquilo que pensamos ser é algo em ação, é fazer, é tudo o que fazemos, física ou psiquicamente, enquanto aparato psicossomático. Isso é karma: a ação aparentemente volicional e a correspondente reação também aparentemente volicional. Cada tal aparente ação é um “evento”, e nosso mundo fenomênico é uma estrutura composta de “eventos” estendidos no tempo — pois cada um deve possuir duração aparente para estender-se no espaço aparente e assim manifestar-se perceptualmente.
Esse movimento, contudo, não faz de nós entidades que agem “no tempo” ou que estejam sujeitas ao “tempo”: ele nos deixa como tudo o que o “tempo” é. Não passamos através de alguma coisa alheia ao que somos, chamada “tempo”, nem algo chamado “tempo” passa através de nós. Não há tal coisa ou objeto objetivo como “tempo” ou “duração”: o conceito representa a duração aparente que torna possível a percepção dos movimentos ou ações aparentes, como resultado dos quais objetivamos a nós mesmos como agentes ou atores, e sobre o que se baseia nossa suposição de que existimos como entidades autônomas.
O “tempo” não possui outra existência, não possui existência própria, não está de modo algum separado da percepção sensiente. Portanto, tudo o que o “tempo” pode ser é um termo para o aspecto serial daquilo que pensamos ser ou parecemos ser como fenômenos. E tudo o que de fato somos é intemporalidade.
II
O Aspecto Secundário do Tempo
“Tempo”, concebido como um objeto, jamais poderia fazer sentido, pois não possui qualquer existência objetiva. É apenas nosso viver sequencial. É, talvez, o próprio viver da vida. Nós o objetivamos por meio de relógios e persuadimo-nos de que os relógios o medem, quando, na verdade, o que medem é nossa vida. Quando perdemos ou alcançamos um trem, perdemos ou alcançamos um relógio. Quando medimos a duração do dia e da noite, da infância e da velhice, estamos medindo nossa própria serialidade e chamando-a de “tempo”. Tempus não fugit: é nosso viver sequencial que se mostra fugaz.
O “tempo” é uma invenção, uma hipótese desenvolvida por nosso impulso de objetivar o subjetivo: a palavra representa um aspecto de nossa volição de afirmar-nos como entidades que funcionam em um universo de objetos, do qual somos os sujeitos autônomos. Inventamo-lo como um elemento de autoafirmação. Não há tal “coisa”, nunca houve, nunca poderia haver. É uma objetivação do aspecto sequencial de nós mesmos. É simplesmente nossa duração aparente, que tentamos separar de nós e transformar em uma “coisa” dotada de existência própria. Erigimo-lo como se fosse algo independente, fizemos uma imagem dele (o Pai Tempo), colocamo-la num pedestal — ora adorando-a como um bezerro de ouro, ora tratando-a como inimiga e usando-a como alvo de brincadeira! Em nenhuma circunstância de nossa serialidade vivente ele é outra coisa senão essa própria serialidade aparente.
Segue-se, portanto, que o aspecto primário do tempo, ou duração, por meio do qual todos os fenômenos tornam-se perceptíveis, é um elemento inerente à nossa própria subjetividade, e tudo o que atribuímos ao “tempo” é parte integrante de nosso próprio perceber. Necessariamente, então, deve ser uma dimensão do que somos — de fato, não seria uma direção de medida diferente das três que produzem a aparência da forma (comprimento, largura e altura), que juntas constituem o volume? Que poderia ser, senão uma direção de medida adicional, interpretada não espacialmente como as outras três, mas tornada perceptível apenas como sequência ou duração — isto é, um elemento integral de nossa fenomenalização, por meio do qual nos tornamos aparentes como objetos, como objetos que parecem perdurar?
Mas tais direções de medida, sejam espaciais, sejam interpretadas como sequência, não são objetos em si. São, por assim dizer, medidas daquilo que somos, a partir do centro daquilo que somos — um “centro” que, sendo do infinito, é ubíquo. Representam conceitualmente aquilo que somos, medindo-se para manifestar-se, o noumenon tornando-se fenomênico por meio do volume tridimensional e da duração. São conceituadas para que aquilo que intemporalmente somos possa ser analisado e compreendido, mas não possuem existência objetiva como coisas em si mesmas. São apenas um esquema pelo qual podemos compreender, na medida do possível, nossa intemporalidade no processo de tornar-se manifesta como o fenômeno temporal.
Repita-se: a compreensão perfeita não pode resultar da visualização de objetos, pois o sujeito dos objetos é, ele próprio, um objeto. Tal compreensão é temporal, derivada e limitada, e há uma descontinuidade entre a compreensão da mente dividida em sujeito e objeto e a apreensão da mente una.
Também não há “mente” enquanto entidade objetiva: há apenas Intemporalidade, que não é “coisa” alguma — e isso é tudo o que somos.
Tentar definir a Intemporalidade seria, de fato, absurdo — pois a temporalidade estaria tentando definir o que não é, e o sujeito não pode ser definido por seu objeto, já que o sujeito, assim fazendo, transformar-se-ia em objeto, o que é precisamente o que jamais poderia ser.
Quando o “eu” buscado desaparece, disse Maharshi, surge o “Eu-Eu” por si mesmo — e isso é o Infinito. É também o Intemporal. Tentar dizer algo tão simplesmente e claramente quanto Maharshi disse pode ser igualmente absurdo, mas — como ele certamente sabia — deve ser dito repetidas vezes, e de tantas outras maneiras quanto possam ser tentadas.
O “tempo”, enquanto duração, é um elemento daquilo que parecemos ser, como o são o comprimento e a largura, juntos chamados “superfície plana”, sendo a altura o que constitui o “volume”; mas, como tal, é uma interpretação da noumenalidade que é o que somos. Sua aparência é a temporalidade, mas sua substância é intemporal — assim como a aparência do volume (ou forma) é finita, sendo sua substância infinita. Portanto, o que chamamos de espaço-tempo manifesta-se como fenomenalidade, mas, não manifestado, é noumenon. E intemporalidade, infinito e noumenalidade são conceitos cuja única e inconcebível expressão é “Eu”.
Nota: Convém lembrar que somos normalmente condicionados a pensar a partir de uma entidade supostamente autônoma, transformando toda percepção e intuição em objeto conceituado. Essa é a famosa posição do “convidado” em vez do “Anfitrião”, do “ministro” em vez do “Príncipe”, do “funcionário” em vez do “Principal”. Pensando assim, apenas giramos em círculos, perseguindo as próprias caudas — jamais podemos escapar de nossos “eus”.
Lendo assim os Sutras e as palavras dos grandes Mestres, nunca compreenderemos — nem poderíamos compreender —, pois tal é a cognição da mente dividida. Quando tradutores obstinados assim verterem as palavras dos Mestres — como, infelizmente, ocorre com demasiada frequência —, suas traduções estarão simplesmente erradas. A posição de “Anfitrião”, de “Príncipe” ou de “Principal” temos apenas de assumir — pois é o que somos —, e, a menos que assim pensemos, falemos, escrevamos e traduzamos, estaremos induzindo ao erro aqueles que escutam ou leem nossas palavras.
Na medida em que qualquer enunciado, explícita ou implicitamente, seja congruente com o conceito de espaço-tempo objetivo, nesse grau ele não pode ser expressão da “talidade” ou da “verdade”, que só pode ser infinita e intemporal.
Tempo Psicológico
As pessoas frequentemente falam de “tempo psicológico”, mas isso é apenas um derivado do tempo astronômico — uma noção pessoal, um tempo individual. Enquanto o tempo astronômico representa a duração inerente a toda manifestação fenomênica, o “tempo psicológico” ou “individual” ou “pessoal” representa a identificação, isto é, a pseudoentidade identificada pensando em um contexto temporal.
Deve ser evidente que quem assim pensa está, por conseguinte, aceitando o mundo fenomênico das aparências como “real” e a si mesmo como entidade autônoma nele, calculando, em termos de duração objetiva, algo que “ele”, enquanto objeto, está fazendo. Tal pessoa encontra-se psicologicamente cativa do “tempo psicológico”, que é um conceito da mente dividida.
O tempo astronômico, ao contrário, pode ser aceito como inerente à manifestação, já que é a duração sem a qual nenhuma manifestação poderia parecer ocorrer. É um elemento da temporalidade, e a temporalidade é o aspecto fenomênico da intemporalidade que é o que noumenalmente somos. Um Mestre desperto pode reconhecê-lo pelo que é — aparência —, ao passo que o “tempo psicológico” é um elemento de cativeiro.