HYMNES AUX KALĪ. LA ROUE DES ÉNERGIES DIVINES (1975)
A Natureza da Realidade e a Crítica ao Vazio no Sivaísmo da Caxemira
- Os sistemas sivaitas não dualistas da Caxemira recusam qualquer ontologia baseada na inexistência ou no nada, sustentando a posição clara de que apenas possui existência aquilo que se manifesta à consciência; consequentemente, Abhinavagupta argumenta que mesmo a ausência de um objeto esperado em determinado local constitui uma representação mental objetiva.
- A Realidade suprema do objeto a conhecer é Siva, definido como Luz consciente ou prakasa, e aquilo que não se manifesta à consciência é considerado inexistente; contudo, mesmo diante de um objeto ausente, subsiste um fundamento existencial caracterizado pelo espanto ou camatkara, o que impede a afirmação de uma ausência completa de conhecimento.
- Abhinavagupta demonstra relutância em valorizar as práticas focadas no vazio, preferindo as vias de purificação que envolvem o corpo, o sopro e o pensamento intuitivo, pois considera que o vazio inconsciente não permite o exercício da vontade e da consciência lúcida, diferentemente das outras estruturas que podem ser impregnadas de consciência.
- O sistema Krama, embora mais favorável à dialética do pleno e do vazio sob a influência do Budismo Mahayana, jamais encara a vacuidade como um fim em si mesma, mas como um meio dinâmico, sob o aspecto das energias Kali, para negar estruturas psíquicas e permitir a emergência do novo ou a revelação da Realidade imutável.
- Estabelece-se uma distinção metafísica fundamental entre o universo percebido como uma rede descontínua e sem consistência, que constitui o vazio propriamente dito ou sunya, e esse mesmo universo apreendido em sua substância como Consciência absoluta e plenitude indiferenciada, estado qualificado como inefável ou anakhya.
- Na via espiritual, sucedem-se cascatas de vazios e estados inefáveis; o praticante pode acessar um vazio superficial e estéril que expõe o inconsciente, ou alcançar o inefável através de um vazio intersticial ou via mediana, onde a Consciência inata se revela.
O Vazio Primordial e a Manifestação Metafísica
- A concepção obscura de anasritasiva, ou Siva-sem-relação, refere-se ao momento na orla da manifestação universal em que Paramasiva, desejando manifestar o universo que repousa nele, fulgura inicialmente como Luz consciente sob o aspecto de Vazio além de todo vazio, ou sunyatisunya.
- Ksemaraja explica que Paramasiva, sendo plenitude indivisa contendo em si Consciência e universo, deve realizar um movimento de retração ou condensação (asyanata), criando um vazio dentro de si mesmo para permitir o surgimento do universo ideal, uma imagem análoga à ideia de Deus abrindo espaço para a criação.
- A energia obscurecedora divide a essência plena em energias subjetivas e objetivas; Siva revela-se então como um sujeito isolado de um objeto ainda universal e indeterminado ao qual recusa servir de fundamento, mantendo todavia a perfeita consciência de Si, semelhante a um artista que imagina uma obra mas se desvia dela.
- Este vazio anterior à manifestação cósmica, identificado como sunyatisunya, é um estado onde a Consciência, através de sua própria liberdade e da energia do tempo (Kali), brilha como separada da objetividade, embora na realidade absoluta permaneça pura luz.
- Abhinavagupta e Bhattaraka Kallata descrevem que, após essa fase de imobilidade e vacuidade correspondente a Siva-sem-relação, ocorre um primeiro movimento vibratório (spanda) onde a Consciência evolui sob a forma de Vida ou prana, precipitando-se em direção ao campo objetivo para assimilá-lo.
Hierarquia e Tipologia dos Vazios na Emanação
- É possível distinguir três níveis essenciais de vazio ao longo da emanação, que devem ser percorridos em sentido inverso pelo iogue: o vazio superior próprio a Siva, o vazio intermediário próprio à Energia e o vazio inferior próprio ao indivíduo.
- O Vazio Superior (parasunya ou sunyatisunya), situado no nível de Siva-sem-relação, é o ponto de partida da ilusão onde o Sujetivo consciente, contentando-se com a consciência e a felicidade, recusa exercer vontade, conhecimento e atividade, repousando numa extase indiferenciada e recusando o jogo da manifestação cósmica.
- O Vazio Intermediário, situado no nível da ilusão transcendente ou mahamaya, ocorre quando Siva-sem-relação se reflete no campo do conhecimento e nega parcialmente sua essência, originando estados como o samadhi sem conteúdo ou o sono ióguico (yoganidra), onde o mundo objetivo desaparece mas seus resíduos latentes permanecem.
- O Vazio Inferior (aparasunya), no nível do indivíduo, manifesta-se quando a diferenciação é total, abrangendo estados de inconsciência como o sono profundo e o desmaio, e culminando, no grau extremo da negação da subjetividade, na existência da matéria inanimada e das rochas.
A Experiência Mística e os Sujeitos do Vazio
- Os sujeitos conscientes do vazio, denominados sunyapramatr, caracterizam-se por uma respiração sutil ou imperceptível e pela ausência de pensamento discursivo, distinguindo-se apenas pelo grau de consciência de si que conseguem manter enquanto ignoram o mundo circundante.
- O vazio surge fenomenologicamente nos momentos de transição, quando se passa de uma modalidade de consciência a outra ou de um plano inferior para um superior, onde as faculdades habituais (pensamento, vontade) experimentam uma vacância por não conseguirem captar a sutileza do novo estado.
- A própria graça divina, ao penetrar o coração de maneira silenciosa e sutil, precipita o indivíduo no vazio, pois sua atuação escapa aos sentidos e ao intelecto, criando uma impressão de aniquilamento das faculdades ordinárias, conforme sugere Utpaladeva ao mencionar ser nutrido sem saber como.
- Há uma distinção crucial entre o sono profundo comum, onde o sujeito ignora tanto o mundo quanto sua própria liberdade, e os vazios místicos; no entanto, existem zonas de ambiguidade, como o "sono do vazio" (inconsciente) e o "sono do sopro" (que deixa rastros de prazer e experiência).
Processos de Purificação: Cristalização e Dissolução
- O iogue pode defrontar-se com um vazio passivo e estagnante que serve, contudo, para relaxar o apego ao mundo e onde ocorre o processo de rodhana, ou obstrução cristalizadora, no qual os obstáculos latentes e resíduos inconscientes (samskaras) se solidificam para serem enfrentados.
- É necessário que o praticante, sob a orientação de um mestre ou pela força da graça, realize a dravana, a fusão ou derretimento desses obstáculos cristalizados, utilizando a energia vibrante do sopro e uma vigilância lúcida para transformar a dualidade e o conflito em vibração consciente.
- Se a vigilância falhar após a fusão dos obstáculos, o iogue cai num samadhi passivo; se mantiver a lucidez, o vazio intersticial se abre para um samadhi ativo onde o objeto é assimilado pela consciência, superando a esterilidade do vazio passivo.
A Ascensão através dos Vazios Intersticiais
- No nível inferior (prameya), o iogue deve evitar o entorpecimento do vazio passivo (semelhante ao sono) e buscar a cristalização e posterior dissolução dos resíduos psíquicos para ascender ao inefável (anakhya) vibrante, ainda que pouco nítido nesta etapa inicial.
- No nível intermediário do conhecimento (pramana), o iogue atravessa o vazio da ilusão purificada; aqui, a felicidade pode ser intensa e os resíduos objetivos já foram absorvidos pelo conhecimento, restando apenas noções sutis de dualidade que devem ser perseguidas pela energia de Rudrakali.
- Abhinavagupta indica que a passagem do sono místico (yoganidra) para o inefável superior é árdua, exigindo que o turbilhão das energias conscientes dissocie as últimas coagulações para que a certeza intuitiva (pramiti) se instale.
- No nível superior do sujeito (pramatr), o iogue transita da ilusão transcendente para a pura certitude intuitiva; se optar pelo repouso, permanece no isolamento de Siva-sem-relação, desfrutando da interioridade mas sem poder sobre o devir; se avançar, alcança a Consciência universal onde o mundo é percebido dentro do Ser.
- O estado final não é o vazio de isolamento, mas um inefável (anakhya) ilimitado onde Siva penetra tudo, descrito como um firmamento (vyoman) onde reina a energia Vyomavamesvari e onde sujeito, conhecimento e objeto são transfigurados na Esplendor (bhasa) da Realidade, uma condição que Swami Laksman compara a viver numa casa feita de doces em vez de apenas ter um doce na boca.