SILBURN, Lilian. Le bouddhisme. Paris: Fayard, 1977
Primeira verdade: a dor universal
Quando, após o Despertar, o Budha se recorda do que era sua vida passada, tudo o que lhe concerne parece-lhe incerteza e tormento.
Se a dor é doravante abolida para ele, ele vê claramente que os outros permanecem prisioneiros dela sem o saber. Não se pode partilhar com eles a plenitude da sua descoberta, o indizível bodhi e, caso se encontrasse as palavras para a descrever, eles não as compreenderiam. Mas do fundo da sua certeza, pode-se desviá-los do erro afirmando que a consciência ordinária é apenas agitação, dor, e pode-se arrancá-los à vã perseguição de uma felicidade sempre comprometida desvendando-lhes o que até então ignoravam: nada, absolutamente nada está a salvo da dor.
Não obstante, não se trata de um convite à resignação ou de uma perspectiva desanimada, pessimista. Longe de reduzir o destino humano a uma busca sem esperança, este ensinamento abre-lhe, logo nesta vida, um campo infinito, o imortal dhatu, o domínio da paz, o porto definitivo; pois se o Budha ensina “tudo é dor”, é porque sabe que tudo é felicidade e que ele encontrou o centro imóvel do cubo da roda do devir: su-kha designando ao mesmo tempo o bom (su) cubo (kha) e a felicidade, o bem-estar; de sorte que, no centro do cubo, o espaço vazio íntimo que se confunde com o espaço infinito escapa ao turbilhonamento da roda.
É deste centro apaziguado que se toma consciência da dor (duhkha) e do caos do samsara onde vive o homem exteriorizado, constantemente descentrado:
Somente, com efeito, aquele que tem a experiência da paz do samadhi — e com mais forte razão o Desperto — percebe os seres como imersos em uma aflição sem fim, levados, impotentes, por um fluxo que os arrasta (samsara), por uma transmigração sem começo nem fim:
Sobre a evanescência e a mudança perpétua
“Em verdade, breve é a vida! Quão fugitiva! A instabilidade é a sua lei.” (M.N., n, 73.)
“Logo que nascem os mortais estão sempre em perigo de perecer, como frutos maduros prontos a cair. Sem propósito e desconhecida é a vida dos mortais aqui embaixo, breve, atormentada, associada à dor!” (Sn, 576.)
“Todos, sábios ou loucos, caem sob o poder da morte. De nenhuma maneira os seres submetidos ao nascimento podem evitar a morte. Após a velhice vem a morte: tal é a lei dos vivos.” (Sn, 575.)
Do que está submetido a uma causa, é dito:
“O seu nascimento é aparente, o seu desaparecimento é aparente, a heterogeneidade da sua duração é aparente.” (A.N., i, p. 151.)
“Enquanto colhe flores, o homem cujo espírito se apega ao prazer, a morte o leva como uma torrente impetuosa leva uma aldeia adormecida.” (DmP., 3.)
“Em breve, infelizmente! tal como um pedaço de lenha abandonada, este corpo estará deitado na terra, vazio, inconsciente.” (DmP., 41.)
“A forma corporal, o monges, é impermanente. O que causa e condiciona a sua vinda à existência é também impermanente. Como, o monges, a forma corporal que tem a impermanência por origem seria permanente?” (S.N., m, 23.) O mesmo ocorre com a sensação, a percepção, as energias fabricadoras e a consciência.
Os textos insistem particularmente sobre a instabilidade do espírito:
O sermão sobre o fogo ilustra bem a constante aparição-destruição:
“Este fogo devora o mundo inteiro, a destruição não tem fim porque o combustível é sempre novo, as chamas sempre novas, e contudo é dito que o fogo permanece. É assim com a pessoa cujo combustível — sensações, sentimentos — é sempre diferente, cuja chama é a sede...” (M.V., i, 21, 1-4.)
“Todas as tendências fabricadoras são evanescentes... Tudo o que é evanescente se completa na dor. Tudo o que é dor é isento de Si e o que é isento de si é vazio.” (U.V., XII, 5-8.)
“O corpo, a sensação, as noções, as tendências fabricadoras, a consciência não são o Si. Se fossem o Si não seriam sujeitos à evanescência e poder-se-ia dizer: que o meu corpo seja assim e assim. Este corpo, estas sensações... são perecíveis, e o que é perecível engendra o tormento; não se pode dizer do que é perecível, fonte de tormento, sujeito à mudança: isto é meu, eu sou isso, isso é o meu atman.” (M.V., i, 6, 38-46.)
Onde se poderia ver um Si absoluto em toda esta evanescência? Este atman, compreendido como um ser eterno em relação ao Si construído pelos atos sacrificiais que os Brahmana pregavam, era para um Yajahvalkia apenas pura interioridade — descoberta mística. Mas da vida interior logo se faria um objeto e um objeto dos mais nocivos. Por isso o Budha recusa-se a postular o que quer que seja, substância, entidade, essência, suscetível de constituir o fundamento ou a origem ou a justificação da concepção do Si e bane o emprego do termo. Toda noção de Si serviria de álibi e faria obstáculo ao total desapego sem o qual não há extinção.
Continuando a tradição dos Brahmana, não se reconhece outra continuidade pessoal que aquela construída pelos nossos atos. Edificamo-nos o nosso eu. Assim: “Aquele cuja imoralidade não tem limite constrói um si que não é outro senão como o seu inimigo desejaria que ele fosse.” (DmP., 162.)
Ao contrário: Meio radical primeiro para chegar ao desapego e para destruir o desejo, a meditação sobre a universal impermanência e sobre a ausência de si “onde se veem as coisas a nascer e a perecer, eis a suprema visão dhamma.” (DmP., 113, 115.)