Skip to main content
id da página: 9620 Bertrand Schefer – A Arte da Luz segundo Ficino Marsilio Ficino

Schefer Arte Luz Ficino

Bertrand Schefer – A Arte da Luz segundo Ficino

FICINUS, Marsilius. Quid sit lumen. Paris: Allia, 1998

Resumo

  • A Luz como Experiência Fundadora e Paradoxo Metafísico

    • A luz é apresentada como o princípio que unifica o mundo, sendo simultaneamente a sua história, génese e a matéria das nossas memórias.
    • Cita-se William Faulkner para evocar uma luz ancestral, anterior à civilização cristã, que ressoa com a "primeira vinda ao ser" e com a meditação de Marsílio Ficino.
    • A "Antiguidade da luz" é identificada como a fonte da dificuldade em defini-la: ela é um objeto de amor e graça, uma experiência intuitiva que escapa a qualquer definição final.
    • Este paradoxo—a presença paradoxal de um esplendor infinito que está em todas as coisas porque não está em nenhuma—fundamenta a necessidade de uma estética, uma metafísica e uma teologia.
    • O tratado de Ficino, o Quid sit lumen, é descrito como um método que dissimula o seu próprio objeto, começando com uma dialética dos sentidos que se interrompe abruptamente.
    • A visão define a luz como uma emanação incorpórea, mas a luz esconde-se no que mostra: vemos com a luz, mas nunca vemos a luz em si mesma.
    • George Berkeley, citando Ficino, verá neste argumento da incorporeidade da luz uma justificação metafísica para o fenômeno visual, contra o mecanicismo.
    • O fenômeno luminoso contém em si o paradigma de um conhecimento superior e do amor, interrogando a relação constitutiva entre a visão e o mundo, o olho e o espírito.
  • A Catena Aurea: A Cadeia Dourada da Luz e a Unidade do Ser

    • A investigação da luz continua para lá do visível, considerando o "espírito luminoso" que, segundo a herança antiga, emana do olho e regressa a ele, explicando a persistência das imagens internas.
    • Recorre-se à etimologia de Aristóteles para ligar a imaginação (φαντασíα) à luz (φῶς), sendo a luz o suporte das imagens interiores e dos sonhos.
    • Propõe-se um exercício mental: subtrair a matéria à luz do mundo, obtendo assim a alma, definida como "luz incorpórea, omniforme, invariável".
    • Estabelece-se uma hierarquia de iluminação (Lux, lumen, splendor, claritas) que desce de Deus até à matéria, irradiando e articulando o próprio ser.
    • Esta hierarquia é a "cadeia de ouro" de Homero, um vínculo consubstancial do universo que revela o ser comum do espírito e da natureza.
    • A luz é o vinculum universi: o laço que une as coisas entre si apenas na medida em que nos religa às coisas, revelando a coesão, origem e destino divinos do mundo.
    • A comparatio philosophica (comparação filosófica) substitui a alegoria, conduzindo à esplendor divino através de comparações extraídas da luz, estabelecendo uma conexão real entre a imagem e o pensamento.
  • O Espaço Visual: Da Geometria à Estética da Luz Incorpórea

    • Num universo regido pela qualidade e onde a forma domina a matéria, a luz ficiniana funda uma estética que articula o mundo visível com o seu ser inteligível.
    • Ficino devolve à luz o ímpeto místico de uma devotio moderna imanente à própria natureza, onde a onipresença da luz reflecte a ubiquidade divina.
    • Contrasta-se a luz aristotélica do Quattrocento—um "meio" homogéneo que permitiu a construção de um espaço racional e perspectivo (e.g., Alberti)—com a luz ficiniana, vista como um acto espiritual de revelação das essências.
    • Para Ficino, toda a ordem do mundo é apreendida, não como está nos corpos, mas como está na luz recebida pelos olhos.
    • A luz é simultaneamente a instância e a origem do espaço visual; o olho é um espectador activo, mas é apenas um dos momentos da luz, não a sua totalidade.
  • Ponto, Linha, Superfície: A Gênese do Espaço a partir da Luz

    • A constituição do mundo sensível em Ficino é a incarnação misteriosa das imagens e desejos da alma.
    • A determinação geométrica dos corpos (ponto, linha, superfície) é um percurso analítico que termina numa entidade abstracta e incorpórea.
    • Ficino demonstra a impossibilidade de compor uma linha ou um corpo a partir de pontos, pois a unidade indivisível do ponto não pode constituir uma realidade divisível.
    • A aporia do espaço visível é assim formulada: a unidade analítica não pode constituir uma realidade finita.
    • A solução é intuitiva: um ponto geométrico, ao mover-se, gera um círculo. Uma centelha de luz invisível, ao difundir-se circularmente, torna-se um "círculo inflamado" visível.
    • A linha, a extensão e o espaço tomam corpo apenas no trabalho intuitivo e indivisível dos sentidos e dos sensíveis na luz.
    • A luz é, portanto, "o ponto tornado visível", o foco de unidade formal e racional das coisas do mundo, e "a primeira forma do primeiro corpo".
  • Branco e Negro: A Cor como Modulação da Luz

    • O visível desdobra-se entre dois pólos: o branco de uma claridade quase divina e o negro da matéria opaca.
    • As cores são geradas como graus de comunicabilidade da luz entre estes dois extremos.
    • O olho e o olhar constituem-se neste meio, aspirando naturalmente à infinitude que as modulações da cor lhe oferecem.
    • Ficino descreve uma "patologia" da luz e da cor: uma cor com demasiado negro impede a expansão do olhar; uma cor com demasiado branco (esplendor) dispersa-o.
    • O olhar ideal busca um equilíbrio, um desdobramento que pare antes da dissipação final, uma saturação que define a tensão de todas as coisas visíveis.
    • Embora a teoria corpuscular de Newton refute os argumentos de Ficino, a sua metafísica da cor encontra um eco na Teoria das Cores de Goethe, que vê na tensão entre luz e não-luz um "rio" de cores que gera as formas.
    • Esta concepção influenciará a arte moderna, de Paul Klee a Wassily Kandinsky.
  • O Quadro de Apeles: A Imagem como Desejo Objetivado e a Gênese do Olhar

    • Na metafísica ficiniana, a imagem—natural ou artística—é uma seção sensível do mundo inteligível, viva e possuindo um instinto secreto para a sua origem.
    • A produção artística objetiva o desejo do pensamento: a forma da obra conserva a forma da alma do artista.
    • Cita-se a anedota de Apeles, o pintor que, ao tentar pintar um prado, descobre que este é a origem e o fim do seu próprio acto de ver e pintar.
    • O aparecimento do visível é simultaneamente o aparecimento do desejo de o representar. A génese da obra é a génese do olhar.
    • O quadro não representa o mundo; antes, o pintor "nasce nas coisas" através de uma concentração do visível.
    • Esta visão ecoa nas aguarelas de Albrecht Dürer, onde a luz é a forma e a plenitude dos corpos, realizando o acto comum do espírito e do mundo.
    • Um eco romântico desta ideia é encontrado em Honoré de Balzac, para quem a paisagem pode ter "ideias e fazer pensar".
  • Conclusão: A Luz como Alegria e Unidade Recuperada

    • O percurso da luz culmina num ponto de saturação mística do real, onde o espírito e a natureza procuram coincidir.
    • A luz define um espaço aberto à circulação simbólica e às metamorfoses das formas do desejo, prenúncio de um mundo curado da inquietação melancólica.
    • Conclui-se com Ficino: "Alegremo-nos da luz sem a qual não podemos gozar nem de nós nem de nada", sublinhando a luz como o meio pelo qual o homem recupera a sua unidade nas suas imagens e no mundo, do qual é o último esplendor.