Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 13187 Gilles Quispel – Agostinho e Evangelho de Tomé Gilles Quispel

Quispel Agostinho

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica , judaica , catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

  • Identificação feita por H.-Ch. Puech do Evangelho segundo Tomé encontrado em Nag Hammadi, mediante demonstração de que os “Ditos de Jesus” dos papiros de Oxirrinco (Pap. Ox. 1, 654, 655) pertenciam à versão grega do mesmo escrito, e exposição da sugestão pioneira de Puech de que tal apócrifo fora redigido em Edessa e conhecido pelo próprio Mani, como testemunha o início da Epistula Fundamenti, o que implica que tradições tomasinas circularam no ambiente religioso que moldou o profeta persa.

    • Consideração de que tal conclusão conduz necessariamente à pergunta sobre familiaridade de Agostinho com o Evangelho segundo Tomé, hipótese plausível dada a prolongada adesão do africano ao maniqueísmo, o que torna provável que maniqueus ocidentais tenham traduzido esse apócrifo para o latim, da mesma forma que traduziram outras obras, e dado também que maniqueus da África do Norte, incluindo o jovem Agostinho, utilizaram versão latina do Diatessaron de Taciano, versão que já havia estado em circulação entre Mani e seus discípulos orientais; mas reconhecimento de que plausibilidade histórica não equivale a demonstração rigorosa, impondo investigação textual precisa.
  • Apresentação de passagem agostiniana que poderia indicar conhecimento do apócrifo: De sermone domini in monte II, 17, onde se lê: “Mas se se acredita que nos céus, como nas regiões superiores do mundo, há o lugar de Deus, então as aves seriam de mérito superior, cuja vida é mais próxima de Deus”, argumento que, pela estrutura interna, exibe movimento intelectual característico de Agostinho, que frequentemente polemizava contra concepções antropomórficas que localizam Deus espacialmente, reduzindo-o a posição física no cosmos.

    • Explicitação de que Agostinho desfere ironia contra visão materialista do divino: se Deus estivesse literalmente no céu, as aves, que vivem nas alturas, seriam “mais próximas” de Deus do que os seres humanos; extração dessa consequência absurda mostra que Deus e alma pertencem ao domínio do espírito, não ao espaço físico, e que qualquer concepção de Deus como corpo alado ou localizado é rejeitada pelo raciocínio agostiniano.
  • Reconhecimento de que tal argumento apresenta analogia estreita com dito do Evangelho segundo Tomé (logion 3): “Jesus disse: ‘Se aqueles que vos guiam vos disserem: Eis que o Reino está no céu, então as aves do céu vos precederão; se vos disserem que ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o Reino está dentro de vós e também está fora de vós. Quando vos conhecerdes, então sereis conhecidos, e sabereis que sois filhos do Pai vivo; mas, se não vos conhecerdes, então permaneceis na pobreza, e sois a pobreza’”.

    • Observação de que espiritualização e interiorização do Reino de Deus são temas relativamente comuns desde que o Evangelho entrou no mundo helenístico, onde categorias gregas impuseram releitura espiritual do Reino; mas ressalva de que o argumento das aves — isto é, o raciocínio segundo o qual, se o Reino estivesse literalmente no céu, então aves teriam privilégio espiritual — é incomum e praticamente sem paralelos na literatura patrística conhecida.
  • Inferência de que a coincidência entre o raciocínio agostiniano e o dito tomasino pode apontar para contato com o apócrifo, sobretudo porque não há identificação de passagens equivalentes em autores patrísticos anteriores ou contemporâneos; lembrança de que Agostinho, em sua fase maniqueia, aderira a críticas de teólogos maniqueus que lhe perguntavam se Deus estaria delimitado por forma corpórea (Conf. III, VII, 12), reconhecimento de que naquela época desconhecia concepção plenamente espiritual de Deus; mas advertência de que esses relatos autobiográficos podem não ser inteiramente confiáveis, pois o Evangelho segundo Tomé já continha aquela interpretação espiritualizada do Reino.

  • Indicação de existência de outros paralelos entre Agostinho e o apócrifo edesseno, cuja análise é adiada para outro estudo, mas afirmação de que nem sempre é possível provar rigorosamente que um dito agostiniano deriva do texto tomasino, visto que ditos não sinóticos de Tomé também aparecem em outros livros que Agostinho pode ter conhecido, enquanto ditos sinóticos de Tomé compartilham variantes com o Diatessaron e com o texto “ocidental” dos Evangelhos, ambos provavelmente conhecidos de Agostinho.

    • Constatação de que desconhecimento do texto exato que Agostinho usava em Roma, Milão, Tagaste ou Hipona dificulta aferição da dependência; mas suposição plausível de que utilizava forma do texto “ocidental” (italique ou africano), contendo leituras paralelas às tomasinas e podendo concordar com o apócrifo sem depender dele.
  • Introdução de caso onde dependência do apócrifo parece provável: variante agostiniana do dito transmitido por Lc 12,13–14. Texto lucano grego: “Anthrope, tis me katestesen kritēn ē meristēn eph’ hymas?”; Vulgata: “Homo, quis me constituit iudicem, aut divisorem super vos?”; mas agostiniana: “Quis me constituit divisorem hereditatis inter vos”, omissão de “iudicem” e preservação apenas de “divisorem”.

    • Observação de que Agostinho cita essa forma invariavelmente, em múltiplos escritos (como demonstrado pelas referências reunidas por P. Bonifatius Fischer), impossibilitando hipótese de citação descuidada; observação de ausência dessa variante em todo o legado manuscrito latino e grego conhecido; constatação de que texto ocidental e tradição diatessaronica igualmente desconhecem tal omissão.
  • Apresentação de único paralelo: manuscrito árabe de Abd al-Jabbar (século X), citado por Shlomo Pines, contendo variante: “Quem me fez partilhador entre vós?”, introduzida após pedido: “Dize a meus irmãos que compartilhem comigo os bens de meu pai”; reconhecimento de que Pines concluiu que Abd al-Jabbar usou fonte judaico-cristã; ponderação de que, mesmo não aceitando todas as hipóteses do estudioso, manuscrito árabe pode conter tradições muito arcaicas.

    • Convergência entre variante árabe e logion 72 do Evangelho segundo Tomé: “Um homem lhe disse: ‘Dize aos meus irmãos que partilhem comigo os bens do meu pai’. Ele lhe disse: ‘Ó homem, quem me fez partilhador?’”, coincidência que reforça hipótese de que tradição tomasina preservou forma antiga do dito.
  • Conclusão de que variante agostiniana parece inspirada pelo Evangelho segundo Tomé, dado que fonte latina ocidental, texto diatessaronico e manuscritos gregos não preservam tal forma; mas registro de dificuldade adicional: versão sahídica conhece também variante “meristēn”.

    • Rejeição da hipótese de que influência sahídica explique leitura tomasina e agostiniana, pois nem o autor muçulmano nem Agostinho tiveram contato com a versão sahídica; dedução de que coincidência entre árabe, tomasino e Agostinho aponta para fonte judaico-cristã mais antiga, conhecida por Tomé e preservada por tradições orientais e, possivelmente, pelo ambiente maniqueu que formou Agostinho.
  • Formulação de que resultados apresentados oferecem apenas parte de pesquisa em andamento, mas sugerem que obra de Agostinho pode conter ainda outros paralelos com o apócrifo, cuja identificação exigirá investigação detalhada; mas afirmação de que dados reunidos são suficientes para sustentar que Agostinho conheceu o Evangelho segundo Tomé e que esse conhecimento provavelmente remonta ao período maniqueu, quando estava exposto a tradições judaico-cristãs e a textos apócrifos transmitidos em meios encratitas e siríacos.