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id da página: 13856 Pétrement – Demiurgo – Judaísmo x Cristandade Simone Pétrement

Petrement Judaismo Cristianismo Primitivo

Simone Pétrement – Hipóteses de formação do gnosticismo

PÉTREMENT, Simone. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

A tensão entre judaísmo e cristandade no fim do século I


Mas se é natural que o ensinamento de Cristo tenha aparecido como fundamentalmente novo, se, em todo caso, o ensinamento de Paulo e João sobre a cruz de Cristo poderia ser considerado absolutamente novo, terá sido este realmente o caso a tal ponto que os cristãos acreditassem que deveriam romper de modo tão completo com o Antigo Testamento? Nem Paulo nem João foram tão longe. Os primeiros cristãos, aqueles do primeiro século, todos parecem ter considerado o Deus do Antigo Testamento como o verdadeiro Deus. Por que razão alguns cristãos fariam o que os primeiros cristãos não fizeram, apenas um pouco depois, cerca do final do primeiro século ou do início do segundo? O que havia mudado?

O que havia mudado, pelo menos, era isto, que o fosso entre o cristianismo e o judaísmo se tinha aprofundado e que, de ambos os lados, algumas pessoas estavam conscientes disso. Os cristãos judeus de Jerusalém, que haviam pensado que poderiam permanecer judeus fiéis mesmo ao se tornarem cristãos, haviam sido vítimas do crescimento do sentimento nacional que precedera a revolta contra Roma. Seu líder, Tiago, fora executado, e um grande número deles, talvez a maioria, teve de fugir de Jerusalém. A queda de Jerusalém em 70 de modo algum diminuira a intensidade do fervor religioso e nacional que inflamava os judeus, nem a animosidade entre muitos deles em relação ao cristianismo. A partir de cerca de 80, os cristãos foram excluídos das sinagogas, e maldições eram pronunciadas contra eles ali. O autor do Quarto Evangelho faz uma alusão a essa excomunhão quando representa Cristo dizendo a seus discípulos: "Excluir-vos-ão das sinagogas, e vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus" (João 16:2).

Do lado cristão também, alguns se endureceram contra o judaísmo. O autor do Quarto Evangelho, de fato, é um deles. Para ele, os inimigos de Cristo já não eram apenas os fariseus, os escribas e os saduceus, mas "os judeus", como se estes simplesmente formassem um bloco único. Ele certamente não pensava que o Deus do Antigo Testamento fosse algo diferente do verdadeiro Deus, e crê que o Antigo Testamento testemunha a Cristo. Mas ele parece questionar o judaísmo de seu tempo quando faz Cristo dizer, repetidas vezes, que os judeus não conhecem a Deus (João 5:37-38; 7:28; 8:19, 54-55; 15:21; 16:3). O Cristo joanino fala como se o Pai não tivesse sido conhecido pelo mundo antes de ele o ter revelado (João 15:21; 17:25). Em particular, ele diz que revelou o nome do Pai (João 17:6, 26), o que pareceria distingui-lo de Yahweh, cujo nome era conhecido. De Paulo a João, há sem dúvida um crescimento na tensão entre judaísmo e cristianismo, e essa tensão permaneceria forte durante as primeiras décadas do segundo século.

É precisamente então que as doutrinas dos gnósticos aparecem de modo mais definido e claro.