FERNANDO PESSOA. ROSEA CRUZ. Lisboa: Edições Manuel Lencastre 1989. Textos em grande parte inéditos, estabelecidos, coordenados e apresentados por PEDRO TEIXEIRA DA MOTA
Por motivos que ignoramos, e porventura ignoraremos sempre, em fins do século dezesseis e princípios do século dezessete, os Rosa-Cruz sofreram uma revelação. Então se deu — e a revelação mostrou que se dera — uma corrupção em parte dos menores da Fraternidade, se é que nela há menores. Começara a ação dos Trezentos.
Então se formou uma espécie de sombra, negra e informe, da Fraternidade, e a gente que formava essa sombra começou de corromper a doutrina secreta e os usos e restrições dela. Foi então que apareceram Robert Fludd, transmissor corrupto do sistema oculto, Francis Bacon, seu esquerdo menor, e outros, de diversas nações, verdadeira ou aparentemente, que fundaram as bases da Maçonaria, e tomaram posse dela, desde logo, ocultamente. Ainda a dirigem.
Este acontecimento invisível, esta cisão na sombra, foi dos acontecimentos mais graves que se têm dado a dentro da civilização europeia. Os Rosa-Cruz eram cristãos, como são, e a sua doutrina (o mesmo nome delas a revela e encobre) consiste em (como eles mesmos diriam) uma transmutação do chumbo do hebraísmo, e do ferro do paganismo, no ouro de Cristo. A corrupção do sistema consistiu, como está patente em Fludd, e mais distantemente patente em Bacon, por exemplo, na abolição da alquimia transmutadora — na reversão à simples Kabala, que é um começo do entendimento do mundo, e àqueles princípios orientais em que a Kabala se funda.
Longe disto tudo, os Mestres da Doutrina Secreta guardam as chaves dos segredos íntimos do mundo. E o que os seus sombras temem é aquilo que na ação dos Mestres eles não podem nunca atingir — o comando da formação dos gênios, a ação íntima e intensa que incidiu sobre Shakespeare, sobre Goethe, e incidirá sobre quem se possa alçar, por nascimento e influxo dos astros, à altura onde a Grande Luz o atinja.
Porque os trezentos temem, acima de tudo, o gênio. Este, sendo de origem superior — representada neste mundo pelo acaso de hereditariedades encontradas, de circunstâncias educativas próprias, de meios sociais suscitadores — está fora da sua ação assombrosa, mas não suprema. Os poderes mágicos dos esquerdos do Oculto, altos como são, não sobem contudo até onde vão os dos Mestres da Doutrina Secreta — ao comando interior das almas grandes, a saber mover os que nascem a que nasçam novamente. Delegados, e anjos, em certo modo, do Deus particular do nosso mundo especial, eles combatem, com forças superiores, os exilados dos entre-mundos, os filhos do espaço noturno, senhores da rebelião, não contra Deus, mas contra a forma que Deus toma ao ser criador do nosso mundo.