PEREIRA DA COSTA, Dalila L.. O Esoterismo de Fernando Pessoa. Porto: Lello, 1971
Para vislumbrar a atitude mental do poeta, Lisbon Revisited (1923), mostrar-se-á como uma confissão, ou tentativa de aclareamento de si mesmo, um esquisso de auto-retrato do artista.
«Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer. / Não me tragam estéticas! / Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica! / Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas / Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) (...) Se têm a verdade guardem-na! (...) Não me peguem pelo braço! / Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.» Profundamente individualista, a procura da verdade será para ele um trabalho e uma aventura pessoal. É na sua experiência espiritual que ele vê a origem do seu saber, é ela que limitará a aceitação dos conhecimentos vindos do exterior, das verdades já feitas. O conhecimento que lhe interessa, não é aquele susceptível de ser comum e totalmente partilhado pela via racional ou sensível; mas aquele partilhado e verificável somente dentro duma certa esfera: a poética e contemplativa.
Qualquer forma de autoritarismo ou dogmatismo será contrária ao seu profundo gosto de liberdade e à sua concepção do conhecimento, como constante demanda da verdade, num processo, sem cessar ultrapassando-se a si mesmo para um seu maior aprofundamento, sem limites fixos, que tornarão sem cessar caducas essas «conclusões» impostas. «Tirem-me daqui a metafísica», revelará, não um pensamento fechado ao transcendente, uma sua recusa, mas antes e somente, uma sua prospecção e apreensão exclusivamente feita dentro dos moldes racionalistas. O seu pensamento não emprega um só dos seus planos; o saber que procurava não era dos susceptíveis de ser apreendido pela simples razão, pois que ele residia para além dos limites do seu domínio e poder; o que ele recusaria à razão é o seu valor de instrumento de conhecimento na esfera a que visava e onde preferentemente se movia o seu pensamento. A que se oporá será contra a sua infalibilidade além do domínio próprio da sua prospecção. Nos mundos onde o poeta pretendeu entrar, não teria acesso com este instrumento, o conhecimento devendo aí fazer-se em formas e moldes ultrapassando aqueles do científico ou quotidiano, onde este instrumento preferentemente se adapta.
O seu pensamento sendo o poético, trabalha, não por conceitos, não avança de forma discursiva, mas por intuições: «compreendo a intervalos desconexos». E será esta intuição, e as imagens e símbolos deste pensamento poético, o que ele empregará para entrar nesses mundos desconhecidos; mundos que ele preferiu a este. Somente neles residirá essa realidade, a única, que lhe mereceu ao longo da sua vida a concentração de todas as forças do seu ser em vista dum, não aprisionamento, mas duma tentativa de testemunhar sobre ela. Somente por esta via, por estas imagens e símbolos, poderia sugeri-la. No poeta, a faculdade de percepção, é a imaginação («fui educado pela Imaginação, / Viajei pela mão dela sempre»). Por esta rara e preciosa faculdade cognitiva, ela atingirá essa realidade escondida. Faculdade preciosa, e precisa, aquela a que um dia chamará «a imaginação concreta». Porque o que o poeta se propõe nesta demanda e na linguagem para a transmitir, não é o conteúdo da falsa e gratuita fantasia, geradora só de alegorias, que não possui qualquer poder de verdadeiro conhecimento, de abrir novos planos do real. Mas a imaginação, aquela que cria símbolos, ou os revela: os únicos que podem dizer e transmitir, para além das puras palavras, um saber atingido pela via poética. Tal como o homem primordial, o poeta exprime-se por símbolos, não por conceitos. Assim eles surgem na sua obra, não como simples artifícios literários ou estéticos, cascas vazias, interpostas entre o poeta e as coisas — tal como para os simbolistas seus contemporâneos e conterrâneos. Mas sim captadores, transmutadores e transmissores do verdadeiro saber. Daquele que é inefável pela simples linguagem empregada para o real empírico quotidiano. Esse inefável, que será sempre o fim da sua aventura poética.
Assim, «Além da razão, inteligência, sentidos», Pessoa deu-nos a sua cosmovisão, e tentou ver a essência do seu próprio ser. Por esta tentativa que se faz, não pelo intelecto unicamente, nem pelos sentidos, visando uma realidade imediata sensível; mas uma supra-realidade, que essa esconde. E é esta última que urge conhecer. O seu realismo é transcendental; como platônico que sempre foi, a sua concepção é essencialmente realista, mas empossando o mundo invisível, o supra-sensível, dessa realidade verdadeira. O poeta estará sempre no pólo oposto a um qualquer idealismo. Nem este mundo nem o outro, são criações do seu espírito. O transcendente existe em si mesmo, independente.
Tudo o que vemos é outra coisa,
A maré vasta, a maré ansiosa,
E o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
E nele a feição de conhecer é um esoterismo, pois que parte da sua afirmação fundamental: a toda a realidade aparente, exterior, corresponde uma outra, escondida, interior.
Especialíssima percepção, que ultrapassa a nossa maneira corrente de conhecer e a sua realidade. Percepção que será semelhante àquela, extra-terrena, a que se refere na Saudação a Walt Whitman: «olha para mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário: / De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma — / Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —».
Poder-se-á dizer que esta percepção é, ao mesmo tempo, condição e efeito dum certo estado de consciência — um acordar, que permite o acesso (ou reacesso), a esse mundo do Absoluto. E o estado do homem acordado que para o poeta é sempre posto em oposição a este outro, o nosso habitual, que é nesta existência como um sono. Em contraste, nestes momentos preciosos desta vida, e nesse momento sem fim da outra vida, este conhecimento será um estado de consciência pura, luminosa. E assim o que é atingido, aqui e agora, será sempre a reapossessão dum conhecimento perdido — uma reminiscência. Tudo elevando-se no pensamento do poeta sobre uma das maiores intuições da sua vida (de carácter existencial e cósmico) — a preexistência.
Há um processo de conhecimento que não se esgota nem para numa fronteira sensível e objectiva. Mas que continua, num movimento de penetração, no qual o objecto é tomado como uma casca ou écran, que urge ultrapassar para atingir um outro real: este, transcendente.
Há um ser existindo em diferentes planos. E esta estrutura ontológica será a mais importante e preciosa apercepção do seu pensamento. E contendo em si o ponto mais alto a que ele visava: ver e aprender o Ser nos seus diferentes planos, ou estados. Toda a sua obra implica e revela esta estrutura. Estrutura aberta, que permite, ou melhor, obriga, a um movimento gnoseológico igualmente em aberto, não parando e não sc limitando ao mundo sensível imediato.
E quando, neste movimento de apreensão, ele visa ao plano mais superior, o último, repetirá a expressão, ou confissão do mesmo ideal de conhecimento:
.................... sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.
Nem os sentidos nem as faculdades do intelecto puro, serão os únicos instrumentos ou os únicos caminhos para atingir o saber desejado. Outros a ele conduzem, não opostos mas ultrapassando-os. Uma outra via de conhecimento lhe será ainda concedida, a de modalidade afim à mística: ponto último atingido neste reino do indizível. E aqui, então, mesmo a imaginação, credora de imagens, poder cognitivo de modalidade visionária, não o poderá mais acompanhar. Neste último percurso, tão alto, nesta última etapa, o poeta estará num outro nível da realidade, onde mesmo esta faculdade não terá acesso. Neste conhecimento, o mais elevado que sobre a terra é dado ao homem de atingir, o poeta abandonará qualquer coisa da sua linguagem. Um dia, numa iluminação que marcará o momento mais precioso da sua vida, Pessoa poderá só transmitir esse conhecimento aí atingido, por uma pura exclamação: «É esse! É esse!» E nesta modalidade do seu espírito, mais que cm nenhuma outra, o poeta sentiu c partilhou a necessidade de todos os místicos —a imediataneidade no acto de conhecer, a não-dualidade, a identidade, onde o objecto e o sujeito não fazem mais que um todo. Em alguns instantes, raros c privilegiados da sua vida, ele possui este conhecimento perfeito, Advaita, aquele que sempre procurou. O único que lhe daria a possessão da única forma da realidade que sempre desejou possuir — o Absoluto.
Participou com os espíritos de tendência mística, a necessidade de unidade: no mundo e cm si mesmo, aquela que reside para além da multiplicidade aparente. Fugir à dispersão, à vida no múltiplo, foi o que sempre procurou. E mais que uma vez na sua existência, lhe seria dado não só conhecer o Um, mas partilhar da sua essência: ser ele mesmo o Um.
Atingir essa unidade, a que num plano inferior do seu eu, o eu empírico e aparente, lhe seria sempre recusada, «Quem sou, que assim me caminhei sem ser, / Quem são que assim me deram aos bocados / A reunião em que acordo e não sou meu?» Aí no plano puramente psicológico, aí por um movimento de introversão, nunca, seria capaz de apreender esta sua unidade e identidade. Mas, unicamente no plano superior do seu eu, lhe foi dado atingir, nesses momentos privilegiados da sua vida, essa unidade que era a do seu eu verdadeiro. Porque então também ele atingiria o despojamento derradeiro: desse seu eu inferior que sempre lhe tolheria o acesso à sua libertação; aí, não por uma ascese prévia, mas por um dom espontâneo, se daria a aniquilação da personalidade, desejada e procurada em toda a via mística, condição de todo o acesso a essa unidade, à sua participação. E aí assim o poeta atingiria a realização desse pedido feito já nos anos da sua juventude. «Senhor, livra-me de mim!».
Mas para aquele que sempre procurou o conhecimento sob esta forma suprema, não-dual, o que aconteceu a partir duma certa época da sua vida? Aquilo a que se poderá chamar uma catástrofe espiritual. A que se queria referir o poeta nesse ano de 1932 quando pergunta: «Para quem desce do espaço / Este crepúsculo antigo?» E que fronteira nessa vida, separando-a acaso em duas metades, tal uma charneira, teria marcado dois anos antes, O Último Sortilégio? O poema onde, mais que em nenhum outro, ele fala do dom de identidade, aquele que a experiência poética lhe tinha concedido — mas já então como dom perdido, do passado. Que impotência, ou proibição, conheceu nesses últimos anos da sua vida? E como lhe fez face?
Neste caminho do conhecimento e do amor, nesta aventura espiritual, Pessoa tinha tentado (e atingido), a sua integração na Realidade, essa integração, que lhe tinha sido recusada (ou a que ele se recusara), na vida exterior, a que ele chamou prática. Integração, que assim se fez, não na realidade sensível quotidiana, mas somente na realidade transcendente.
Mas então a partir desses anos cruciais da sua vida, que o poema O Último Sortilégio assinalará como um marco de etapa, no percurso da sua aventura espiritual, uma outra via parece ter sido tentada. E nesses anos perturbados, tal um percurso num labirinto, ela se afigurará como uma via iniciática.
O conhecimento foi para Pessoa uma experiência vivida. Conhecer foi para ele uma modalidade de ser, atividade não separável da sua existência, pois que fazendo parte do seu ser integral, e possuindo uma finalidade soteriológica, toda a sua vida e obra são demandas de redenção pelo conhecimento, poético e contemplativo, os dois tomados, assumidos, como exemplares exercícios espirituais.
No pensamento do poeta, na obra que o reflete, nada existe de gratuito; nem de exterior à sua existência. Há sempre uma atitude coerente, se bem que não sistemática; e esta sua coerência vem da profunda sinceridade e gravidade que a impregna toda. Há um conhecimento, que é experiência espiritual, contendo em si linhas de força, polos, ou temas diretores e organizadores dum todo; e que estão presentes nesta obra do princípio até ao fim. Aí se desenvolvem, se alongam através dela, transformando-se sem cessar como todo o ser vivo, e sempre perseverando a sua identidade particular. Assim persistem evoluindo, tomando diferentes faces. Aparecem associados em constelações. De mitos, a preexistência, o paraíso perdido, a reintegração do homem primordial, a ascensão da montanha cósmica; de símbolos, o barco abandonado, a passagem difícil, o poeta como emissário do além...; de crenças, a existência do mistério como cerne irredutível do mundo, a modalidade esotérica como verdadeira forma do conhecimento, a existência dupla, terrestre e celeste do real e do eu... As mesmas perguntas sempre: pontas vitais, ardentes; inelutáveis para o poeta.
Mas o centro, o coração que concentra e liga todas estas constelações de temas, é sempre, ao longo da sua vida, o problema da salvação; é ele que orienta, imaniza, todo o seu pensamento, toda a sua vida.
E à sua obra poder-se-ia chamar uma nova Demanda do Graal.