PANIKKAR, Raimundo. The rhythm of being: the unbroken trinity: The Gifford Lectures Edinburgh University. Maryknoll, New York: Orbis Books, 2013
A Questão Fundamental e o Destino do Ser
- A minha questão fundamental, que não é retórica nem exclusivamente teórica, é a do destino do Ser, uma questão que não posso abordar adequadamente excluindo-me a mim mesmo, nem posso perguntar sobre o meu destino sem envolver também o destino de toda a raça humana, da terra inteira e do universo na sua totalidade, nem podemos excluir o Divino nesta aventura, sob pena de a nossa dignidade pessoal se tornar uma palavra vã.
- Compreendemos aqui o Divino como esse Poder que, sendo imanente no cosmos e em nós, ultrapassa todas as nossas categorias, fornecendo-nos um ponto de referência transcendente, pois sem uma ligação direta com esse ponto transcendente somos apenas um membro de uma série, substituível por qualquer outro indivíduo da mesma espécie, perdendo a nossa singularidade e, com ela, a nossa dignidade, mas, por outro lado, se este ponto de referência fosse exclusivamente transcendente, seria inatingível e não poderíamos invocá-lo como salvaguarda da nossa dignidade, pelo que este ponto de referência deve ser também imanente neste mundo.
- Um nome comum para este ponto de referência é o Divino, e esta é a aporia que nos ocupará ao longo destas páginas, concluindo-se que não podemos excluir o Divino de participar no Destino do Ser, pois o monoteísmo rígido quer salvar Deus do Destino, o que pode ser a razão pela qual "Destino" tem um certo significado pejorativo, enquanto o cristianismo trinitário, reconhecendo o Divino como relação, não exclui o Divino de participar no Destino do Ser.
- Se o Homem é mais do que uma simples espécie de um género animal, se é um microcosmos e um ícone divino, e o destino do Ser se está a jogar pelo menos "parcialmente" na nossa destinação (e vice-versa), então o que se passa no universo em geral tem ressonâncias em nós, existindo uma correlação universal, perichōrēsis, e esta conexão não é governada pela lei da causalidade, que seria magia ou puro mecanicismo, sendo a relação de tudo com tudo uma de inter-in-dependência.
- Existem, naturalmente, tragédias pessoais que não arrastam o mundo inteiro, e erros coletivos ou históricos que não nos sobrecarregam pessoalmente com uma culpa irremediável, havendo amplo espaço para o que chamei ontonomia, mas, quer possamos ou não dominá-lo intelectualmente, parece haver uma espécie de solidariedade total, para a qual o nome de Ser pode não ser a pior palavra, sendo um pensamento individualista do nosso destino tão impossível como uma linguagem privada.
- Expressões como destino comum, solidariedade, karma, dharma-kāya, buddha-kāya, ecclesia, gahal, umma, a comunhão dos santos, o corpo místico de Cristo e similares não significam que o destino de um seja o destino de todos, que não possa haver alegria onde reina o sofrimento, ou que a relatividade radical de tudo com tudo seja uma cadeia de ferro de causalidade estrita, falando antes de uma inter-in-dependência e intra-in-dependência de todas as coisas em que cada ser tem a sua ontonomia, o seu grau de liberdade e responsabilidade, nos seus sentidos etimológicos e não num sentido exclusivamente moral, sendo a realidade como um organismo vivo uma ideia tradicional tanto no Oriente como no Ocidente, e a crença na anima mundi quase universal.
- Já critiquei a falácia de confundir a lógica dos conceitos com os processos reais do Ser, pois um conceito não é a coisa e, não obstante as leis físicas, o comportamento real das coisas não precisa de estar vinculado ao cálculo matemático com conceitos, mas o conceito, que não pode ser de qualquer coisa individual, é um símbolo poderoso para a solidariedade do real, embora o Ser de que falamos não seja um conceito, pois o chamado ens commune é uma abstração formal e o ens realissimum apenas uma Entidade suprema, sendo o Ser a que me refiro aquele que abraça tudo o que (aí) está, o que significa que estamos intrinsecamente relacionados uns com os outros, uma relacionabilidade intrínseca que não é uma substância e, no entanto, é uma relação real (advaita), pelo que a expressão "Destino do Ser" não é uma frase vã.
- Hesitei sobre o uso desta palavra carregada "Destino", pois forjar um neologismo deve ser apenas um último recurso, mas, por outro lado, não podemos ignorar o contexto das palavras e as suas conotações em tempos passados e presentes, e, aprendendo com a sabedoria das palavras codificada na sua etimologia, decidi manter a palavra "destino" como distinta de "fado", pois a filosofia estoica encorajava a ceder ao destino, como o imperador Marco Aurélio, enquanto a espiritualidade cristã dos primeiros séculos tomou a visão oposta, a de lutar contra o fado, que incluía a rebelião contra as "obrigações sociais" da época, como disse Tecleta, uma das virgens no Diálogo escrito por Metódio.
A Legitimidade da Inclusão do Divino
- É apropriado recordar desde o início a necessidade de sobriedade intelectual, pois é bom não estabelecer limites à nossa busca, mas será próprio empreender uma investigação antes de verificar se temos as ferramentas apropriadas, estando nós autorizados a incluir o Divino nos nossos voos intelectuais, estando o intelecto humano dotado de tal poder, não estando o Divino fora dos limites humanos por definição?
- Um tema tão ambicioso deve ser abordado com prudência e respeito: a prudência do pensamento de um indivíduo perante a opinião coletiva; o respeito devido a tudo o que é superior a nós, mas, por outro lado, seria pouco saudável e contraproducente cortar o próprio ímpeto do intelecto humano e manter a especulação sobre a Divindade fora dos limites, não sendo cada um de nós uma imagem divina, como muitas tradições humanas proclamam, e além disso, somos nós, seres humanos, que falamos – ou ouvimos – da transcendência divina e, por esse próprio facto, já transgredimos essa transcendência e a incorporamos na imanência do nosso ser.
- Intellectus capax dei ("o intelecto humano é capaz de Deus"), disseram os antigos, afirmando assim uma abertura para o infinito, pois uma Divindade exclusivamente transcendente não pode partilhar o destino do universo; não pode ter qualquer relação conosco, e, se este for o caso, então alguns "crentes devotos" não deveriam "queixar-se" se a modernidade em geral e a ciência moderna em particular romperem relações com tal Deus.
- É legítimo, portanto, não eliminar o Divino ao perguntar pela questão ou questões últimas, procedendo aqui a (1) dar alguns exemplos, e depois (2) acrescentar algumas considerações, antes de (3) submeter todo o projeto a uma crítica radical.
1. Alguns Exemplos
- No século I a.C., Marco Terêncio Varrão, doctissimus Romanorum, "o mais erudito dos romanos", como Agostinho o chamou, ao reunir todo o conhecimento disponível, escreveu que, para organizar todas as coisas humanas e divinas, o melhor método era inscrevê-las sob quatro títulos: Quem? Onde? Quando? O Quê?, ou seja, Quem somos nós? Onde estamos? Quando existimos nós e todas as coisas? O que são as coisas?
- É inadequado interpretar estas questões como pertencendo apenas à introspecção psicológica ou individualista, nem são exclusivamente políticas, tendo a sabedoria índica reduzido as quatro questões à primeira e simplesmente perguntado de uma maneira mais ontológica e subjetiva: ko’ham? Quem sou eu?, enquanto o espírito romano, eclético e prático, faz quatro perguntas para fazer justiça à busca última humana, e o espírito grego, sincrético e metafísico, intrigado com o problema do ἓν καὶ πολλά, "o uno e os muitos", tende a chegar a um compromisso através de uma teoria da emanação.
- Um quinto questionamento há muito intriga a mente humana: Donde?, colocando os Upanishads a questão: "Donde, verdadeiramente, são as criaturas aqui nascidas?", com a resposta a ser o desejo de Prajāpati, o Pai de todas as criaturas, de ter descendência, não sendo a questão sobre as origens apenas uma questão cosmológica ou histórica, mas estando também na base da maioria das operações lógicas, pois o pensamento dedutivo preocupa-se "de onde" chegamos a certas conclusões.
- Temos de nos situar nalgum lugar para fundamentar a resposta, podendo aqui detetar a bifurcação entre a modernidade e o pensamento clássico, pois, como as origens são desconhecidas, a mente moderna confia em si mesma para uma resposta a esta questão última e, assumindo uma antropologia ascendente, tenta organizar os dados disponíveis e chegar a uma resposta plausível: a hipótese científica interpretada como uma teoria metafísica, enquanto a mente tradicional, consciente de que as origens não são apenas desconhecidas mas também misteriosas, e assumindo uma antropofania descendente, tenta abrir-se a esse mistério e organizar uma resposta sensível.
- Devemos sublinhar que aqui a oração é a mais alta atividade do intelecto, que não apenas pede favores privados, mas se conecta com a Fonte de toda a inteligibilidade, sendo também relevante notar que Justino, um filósofo "pagão" e mais tarde mártir cristão do século II, deixou os seus mestres estoico, aristotélico e platônico e tornou-se cristão porque não tinha ouvido de nenhum deles o que séculos mais tarde outro filósofo não cristão ensinou: sem iluminação de cima as nossas questões últimas não têm resposta.
- Estas questões últimas, de uma forma ou de outra, assombraram o espírito humano em todos os tempos, podendo uma história da humanidade ser escrita analisando quais as questões que foram as mais fundamentais ou últimas, como os exemplos de uma mudança do interesse objetivo para o foco no sujeito, onde um Upanishad pergunta: "O que é a Causa? Brahman? Donde viemos a ser? Por quem (ou o quê) vivemos? Em que estamos estabelecidos?", sendo, exceto pela primeira interrogação, todas as questões referentes ao Homem, mais antropológicas do que cosmológicas.
- A intuição do "eu sou" é próxima da autorrevelação de Yahvé – não obstante interpretações e contextos diferentes –, não sendo todas estas e questões semelhantes motivadas por uma curiosidade exclusivamente objetiva, mas por uma aspiração a saber, porque para a maioria das culturas o conhecimento real é o conhecimento salvador, sendo a salvação entendida como o destino último, pelo menos para o Homem, pelo que o problema é saber, sendo a resposta mais comum saber "Deus", o que muitas tradições homologam com conhecer-se a si mesmo, e praticamente todas equiparariam a conhecer a Verdade, uma Verdade que nos liberta.
- O Upanishad pergunta: "O que é isso, conhecendo o qual tudo se torna conhecido?", e, se for aceite a existência de um Conhecedor supremo, a questão transforma-se em: "Como podemos conhecer o Conhecedor?", uma resposta que obviamente transcende o plano epistemológico, pois, se tivéssemos sucesso em conhecer o Conhecedor, o Conhecedor tornar-se-ia o Conhecido e deixaria de ser o Conhecedor, a menos que ambos se fundissem e houvesse identidade entre conhecer e ser, tornando-se a epistemologia ontologia e a onto-logia perfeita chegando à identificação entre o ὄν e o λόγος, o ser e o pensamento.
- O poder da religião teísta reside em dizer que há "Algo" em que todas as questões param e todas as respostas se dissolvem, como diz Abhinavagupta: "Mesmo que Ele (Śiva) seja suposto estar obstruído por uma cobertura (por exemplo, māyā), Ele ainda brilha pela Sua liberdade na forma dessa própria cobertura", podendo detetar-se um eco de um Upanishad: "O rosto da verdade está coberto por um vaso de ouro. Descobre-o, ó Senhor, para que eu que amo a verdade possa ver".
- As três perguntas kantianas frequentemente citadas poderiam fornecer-nos outro exemplo dirigido ao Quê: O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar?, podendo as três ser subsumidas numa: "O que é o Homem?".
- Estes exemplos mostram que uma questão última pode ser formulada a partir de qualquer perspectiva dada, havendo muitas perspectivas, mas a curiosidade humana pergunta imediatamente se há uma perspectiva última, sendo irónico que as duas questões que reivindicaram ser as questões últimas universais estejam mutuamente relacionadas: uma é a questão sobre Deus, a outra sobre o Ser.
- A questão sobre Deus seria então a verdadeira "Questão Última", dependendo tudo da natureza de Deus, de se este Deus existe ou não como uma entidade suprema, de se é a Hipótese Deus, um postulado para ordenar a vida humana e o comportamento cósmico, ou um Deus Vivo, que é real, sendo o famoso "argumento ontológico" uma sombra no horizonte, pois, se Deus é a Fonte de todas as coisas e a própria condição para o nosso pensamento, então a questão de Deus será de facto a questão última, e todas as questões últimas girarão em torno de Deus, e, se Deus for descrito como o Receptor de todas as respostas, Deus será, claro, a Resposta a todas as nossas questões últimas, de qualquer canto de onde venham.
- A questão sobre Deus é de facto uma questão última, mas a dificuldade reside no facto de Deus não dar uma resposta última, não só porque este Deus geralmente mantém silêncio ou não dá qualquer resposta, mas também porque, se Deus falasse, não poderíamos evitar discutir sobre o significado da(s) resposta(s), como a história das religiões demonstra suficientemente, e, além disso, Deus pode ser uma Resposta última, mas uma resposta não solicitada não é uma resposta, pois há culturas e filosofias que não considerariam esta questão a única questão última, como algumas escolas de niilismo, anarquismo e "politeísmo", bem como o budismo e o jainismo.
- Bastante diferente é a problemática budista sobre śūnyatā, o vazio, não sendo fácil para uma mente indo-europeia reativar o estilo de pensamento que levou à filosofia do vazio, sendo a questão última neste contexto não a interrogação sobre Deus, mas a não-questão do vazio, sendo a resposta última que não existe tal questão.
- O nosso outro exemplo é a velha e recentemente debatida questão metafísica: "Por que razão há seres e não antes o Nada?", havendo uma semelhança formal entre estas duas questões (sobre Deus e sobre o Ser) – são de algum modo circulares e petentes, o que não é uma objeção, mas antes uma prova de que chegámos a uma tautologia qualificada, que tem de ser uma tautologia se reivindicar ser última, e que tem de ser "qualificada" se a tautologia não deve ser estéril.
- A questão sobre o Ser ou o Nada é a contraparte existencial do argumento ontológico, pois, se o Nada é aquilo para além do qual nenhum pensamento pode prosseguir, esse pensamento vazio será o último ponto de referência e o local de repouso de todo o pensamento, mas este pensamento vazio não é uma resposta, pois, se o Nada fosse a resposta, não haveria nem pergunta nem questionador para colocar a pergunta.
- A questão de um porquê colocado ao Ser implica a dupla suposição de que o Nada é uma possibilidade real, e de que a mente humana tem uma capacidade para extrapolações formais que não precisam de ser sustentadas por um estado real de coisas – sine fundamento in re, diriam os escolásticos, sendo a questão sobre o Nada um resultado desta questão fundamental sobre o Ser, uma questão antiga – mesmo na mesma forma –, uma questão metafísica, cósmica e, no entanto, profundamente humana, que o jovem Nachiketas fez de forma existencial, perguntando sobre o Além: "é ou não é?", séculos antes da questão de Hamlet em Shakespeare: "Ser ou não ser?".
- "Por que o Ser?" é uma questão estranha, mas não contraditória, pois a razão humana tem o poder de perguntar um porquê a toda a coisa, seja qual for a resposta, mas "por que o Nada" é um porquê que repousa sobre si mesmo e não pergunta nada, sendo a questão formulada desta forma reveladora de uma forma peculiar de pensamento ocidental, pois que significado tem um porquê se não há nada sobre o que perguntar?
- O equilíbrio parmenidiano entre Pensar e Ser é deslocado a favor da primazia do Pensamento sobre o Ser, pois o Pensamento pode funcionar por si mesmo, independentemente de haver algo além do puro formalismo do pensamento "puro", mas a matemática pura funciona assim, mas a matemática não pergunta porquê e funciona apenas com base num conjunto de axiomas e regras acordados, persistindo a questão: Por que razão existe tal autonomia do pensamento puro independente de qualquer conteúdo do pensamento?
- A resposta imediata é dizer que é uma questão contraditória, pois não há porquê para perguntar um porquê se o porquê não pergunta nada, pois, em última análise, perguntar um porquê equivale a perguntar pela "razão" da coisa em questão, podendo o Ser ter uma razão para ser – por mais problemática que esta razão possa ser, mas o Nada não tem qualquer "razão" para "ser" o que não é, podendo isto ser tão longe quanto podemos ir, pelo menos dentro de uma perspectiva metafísica particular.
- Um salmo hebraico, especialmente na sua forma latina, há muito assombra os escritores cristãos desde os gnósticos e Irineu: "O abismo chama pelo abismo", pois, se Deus criou a partir do nada, a natureza própria e última da criatura é o nada – como Tomás afirma explicitamente, tendo assim fechado o círculo, pois perguntámos sobre o mundo objetivo; interrogámo-nos mais sobre nós mesmos; tentámos combinar objetividade e subjetividade e perguntámos sobre Deus; finalmente purificámos a própria questão de todas as suas aderências (conteúdos) e permanecemos com uma questão vazia que encontra a resolução dissolvendo-se a si mesma, tendo, na nossa busca pelo Todo, encontrado o Nada.