VIVENZA, Jean-Marc. Nâgârjuna et la doctrine de la vacuité. Paris: A. Michel, 2001
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Teoria das Duas Verdades
- Fundamento de Nagarjuna no uso ordinário da vida e nas formas dadas da realidade concreta.
- Consideração da especificidade do singular e da universalidade das leis do ser, negando, porém, afirmações e negações sobre estas leis.
- Distinção de uma dupla dimensão no interior do real: a verdade suprema (paramartha) e a verdade convencional (samvrti).
- Verdade suprema: realizada pelos Despertos que compreendem o absoluto como vacuidade (sunyata).
- Verdade convencional: própria dos seres imersos na ilusão e na ignorância mundana.
- Explicação baseada na impotência da linguagem e dos conceitos, relativos ao mundo, para expressar a realidade supra-mundana.
- A negação da experiência ordinária como a única atitude apropriada, caracterizando a empresa crítica de Nagarjuna.
- Sutileza da teoria: nirvana e samsara não são antitéticos, mas um só e mesmo mundo, diferindo apenas pela percepção (iluminação vs. ignorância).
- Citação de "MK, XXIV, 8-9": "É apoiando-se em duas verdades que os Budas ensinam o Dharma... Aqueles que não discernem a linha divisória entre estas duas verdades não discernem a realidade profunda na doutrina dos Budas.".
- A linha divisória como a Via do Meio, onde o real se revela na sua natureza paradoxal e insubstancial.
- A vacuidade de Nagarjuna não é equivalente ao nada, mostrando que os fenômenos existem como aparência concreta de um ponto de vista limitado, mas não numa percepção mais profunda.
- Descrição dos dois níveis de realidade: verdade convencional (realidade empírica) e verdade última (abolição de toda diversidade, incluindo a produção dependente).
- Equivalência última entre nirvana e fenômenos: "o que se chama fenômeno do ponto de vista do condicionado é nirvana do ponto de vista do incondicionado.".
- O mistério da equivalência entre nirvana e samsara expresso com força singular na doutrina de Nagarjuna.
- A empresa teórica de Nagarjuna não é um jogo intelectual, mas um "método de libertação", uma "disciplina concreta do espírito".
- Recusa de uma "verdade unidimensional e ôntica" herdeira de Aristóteles.
- Princípio de equivalência: "a existência para ele é não-existência, a não-existência é existência.".
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A Lógica do Vazio
- A afirmação de equivalência entre existência e não-existência gera perplexidade natural.
- Compreensão de que esta lógica é uma "lógica da impermanência", escapando ao modo binário do sim/não e ao princípio do terceiro excluído.
- Mecanismo original de superação dos imperativos categóricos do senso comum, desorientador para um espírito formado pela razão ôntica.
- Contrastes com a lógica familiar, baseada no princípio da incompatibilidade dos contraditórios, formalizada por Aristóteles.
- Reconhecimento de que a Índia possuía um aparato analógico comparável à lógica aristotélica.
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A Lógica Indiana
- O sistema de lógica indiana expresso nos "Nyaya-sutra", atribuídos a Akshapada (séculos II-III d.C.), com fundador Gautama (séculos VI-III a.C.).
- Objetivo do Nyaya: fornecer uma base racional para as crenças do panteão indiano, usando uma lógica da causalidade e do juízo analítico.
- Tradição de comentários (Vatsyayana, Uddyotakara Bharadvaja, Vacaspatimisra, Udayana).
- Origens da lógica indiana não apenas nos "Nyaya-sutra", mas também em controvérsias nas Upanishads e textos de Ayurveda.
- Intima relação entre o desenvolvimento da lógica e da medicina na Índia.
- Os dezasseis "padartha" (objetos das palavras) dos "Nyaya-sutra".
- Descrição dos seis primeiros "padartha": 1. "pramana" (meios de conhecimento válido), 2. "prameya" (objetos do conhecimento), 3. "samsaya" (dúvida), 4. "prayojana" (motivo), 5. "drshtanta" (exemplo), 6. "siddhanta" (doutrina estabelecida).
- O sétimo "padartha", "avayava" (membros do raciocínio), correspondente ao silogismo de cinco membros: 1. "pratijna" (proposição), 2. "hetu" (razão), 3. "udaharana" (exemplo), 4. "upanaya" (aplicação), 5. "nigamana" (conclusão).
- A lógica indiana descrita como "um exame crítico dos objetos do conhecimento pela demonstração lógica".
- Diferença fundamental com a lógica aristotélica: a lógica indiana é uma "lógica do conhecimento", visando a libertação do erro e da ilusão.
- Objetivo último do Nyaya: alcançar a libertação final ("apavarga") através do conhecimento correto, eliminando a falsa conhecimento ("mithyajnana").
- Este objetivo de libertação também se encontra na lógica de Nagarjuna, embora as análises divirjam na maioria dos pontos.
- Exemplo da divergência: a refutação do tempo por Nagarjuna ("MK, XIX, 5") e a réplica dos lógicos Nyaya baseada na experiência imediata.
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A Refutação Nagarjuniana da Lógica Indiana
- Ponto de partida: a ausência de natureza própria dos seres e coisas.
- Demonstração da impossibilidade de um juízo baseado numa visão parcial e incompleta da realidade.
- Duplo critério da dialética de Nagarjuna face aos pontos de vista ("drsti") adversários: inteligibilidade e positividade.
- Inteligibilidade: subdivide-se em rigor lógico/coerência formal e possibilidade/impossibilidade real (acordo com a experiência).
- Positividade: o constato factual responde à pergunta "de que se fala?".
- O constato demonstra a impossibilidade de conferir ser aos fenômenos, dada a sua vacuidade.
- A "universal ausência de consistência ontológica" impõe um "justo silêncio" face a todos os entes.
- Consequência lógica: recusa de qualquer posição fixa, usando a refutação como método privilegiado.
- Os três tipos de refutação de Nagarjuna: 1. Impossibilidade lógica ("na yujyate"), 2. Impossibilidade real ("nopapadyate"), 3. Constato de inexistência ("na vidyate").
- A "lógica negativa da não-substância" permite refutar tudo, inclusive a si mesma.
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A Identidade Faltante do Ser
- A vacuidade como método recusa todos os pontos de vista.
- Aplicada à análise dos fenômenos, quebra a teoria clássica da identidade (A é A, logo A não é B).
- Na visão de Nagarjuna, uma coisa nunca é o que é (A não é A).
- Lógica abolitiva que implica a sua auto-abolição (A não é A nem B).
- Citação de "MK, XIII, 18": "Os Vitoriosos declararam que a vacuidade é a extirpação de todas as visões, e proclamaram incuráveis aqueles que fazem da vacuidade uma visão.".
- Evacuação do princípio do terceiro excluído e adoção do princípio da identidade dos contrários e da não-identidade do ser.
- Resultado inevitável: cessação de toda formulação sobre o ser ou não-ser, restando apenas o silêncio.
- A identidade faltante impossibilita conferir singularidade a A, o símbolo tradicional do objeto identificado.
- Explicação da lógica clássica sobre a quantidade das proposições (universal A, E, particular I, O).
- Em Nagarjuna, A é apenas uma convenção gramatical, uma facilidade de linguagem.
- Recusa do silogismo que enuncia uma conjunção de identidade (A e B).
- Citação de "MK, VIII, 7-8" sobre a impossibilidade de um agente que é e não é.
- Fidelidade de Nagarjuna ao Buddha, que rejeitava tanto o "há" ("astiti") como o "não há" ("nastiti").
- Citação de "MK, XIV, 7" referindo a refutação pelo Buddha da existência e da não-existência.
- A atitude de Nagarjuna: refuta uma proposição sem adotar a sua contraditória ("prasajya-pratisedha").
- O silêncio de Nagarjuna não é indiferença, mas uma preparação para uma "intuição libertadora" que surge no vazio.
- A dialética é um "mecanismo de refutação permanente", brincando com posições contraditórias.
- Citação de "MK, XVIII, 6": "Os Despertos mencionaram 'o eu existe', também ensinaram 'o eu não existe'; mas ainda proclamaram que não existe eu nem não-eu.".
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A Não-Via
- A Via do Meio apresenta-se paradoxalmente como uma ausência de via, uma recusa do dilema metafísico.
- Uso do tetralemma ("catuskoti"): 1. A é verdadeiro, 2. A não é verdadeiro, 3. A é verdadeiro e falso, 4. A não é verdadeiro nem falso.
- Citação de "MK, XVIII, 8": "Tudo é verdadeiro, não verdadeiro, verdadeiro e não verdadeiro, nem verdadeiro nem não verdadeiro; tal é o ensinamento do Desperto.".
- Explicação: devido à não-substancialidade, não pode haver afirmação ou negação sobre qualquer fenômeno, tornando todas as proposições do tetralemma igualmente falsas.
- Paradoxo: pela mesma impossibilidade, toda afirmação e negação são igualmente autorizadas.
- O tetralemma é uma "lógica auto-abolítica" que reconhece como verdadeiras a afirmação, a negação, a não-afirmação e a não-negação, inclusive a simultaneidade de verdadeiro e falso.
- Contraste com a lógica aristotélica e sua lei de não-contradição: "É impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença ao mesmo sujeito ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.".
- Crítica de Aristóteles àqueles que negam este princípio: não dizem nada, são como uma planta.
- Questionamento: Nagarjuna seria então uma planta?
- Citação de "MK, XVIII, 11": "Nem identidade, nem diversidade, nem aniquilamento, nem permanência, tal é o néctar do ensinamento dos Despertos, protetores do mundo.".
- O silêncio de Nagarjuna não é vegetativo, mas uma ferramenta crítica usada contra visões fragmentárias.
- A sua lógica é uma "arma ao serviço da verdade íntima do ser das coisas".
- A realidade é "indizível" devido à sua não-substancialidade, recusando toda redução lógica.
- O paradoxo de "falar guardando silêncio" ou "estar mudo falando".
- O "dizer indizível da vacuidade" exemplifica a impossibilidade de expressar o absoluto.
- Conclusão: no âmago da não-substância, toda a palavra é não-substancial, todo o dizer é não-significante.
- Compreensão de que não há acesso ao incomunicável através da linguagem conceptual.
- A "palavra silenciosa" de Nagarjuna é a "justa formulação", a "única possibilidade oferecida à expressão formal da vacuidade".