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id da página: 10603 Henri Le Saux – Iniciação à espiritualidade dos Upanixades

Le Saux Upanixades Gratia

Henri Le Saux – Iniciação à espiritualidade dos Upanixades

LE SAUX, Henri. Initiation à la spiritualité des Upanishads: vers l’autre rive. Sisteron: Éditions Présence, 1979

Graça

  • A graça da Índia é uma graça de interioridade, acessível apenas na medida em que o indivíduo vive no interior de si mesmo, pois compreender a Índia e ser compreendido por ela exige essa penetração no segredo do “dentro”, de onde decorre simultaneamente a descoberta de si no abismo interior.
  • O culto hindu, embora muitas vezes exterior e até grosseiro, nunca é tomado de modo absoluto, pois constitui apenas o lîlâ, o jogo divino do Senhor na criação, que é vivido com seriedade relativa, sempre dentro da orbe do tempo e do espaço, sem valor definitivo.
  • O Hinduísmo autêntico só pode ser concebido como uma abertura pelo alto, um débouché essencial para o Mistério transcendente em que ele se supera e se consuma, revelando sua grandeza na intuição primordial dos Rishis, além das degenerescências supersticiosas em que por vezes se enreda.
  • A realidade última é somente o Supremo, o Brahman inominável, que se manifesta no nascimento, duração e destruição dos mundos, como canta Râmânuja no início do Shrî Bhâshya; assim também o devoto participa do jogo do Senhor, sem jamais comprometer o fundo absoluto que permanece impassível.
  • O hindu, ao prostrar-se diante de uma ídolo ou ao ler os Purânas, sabe que tudo é símbolo e que Brahmâ, Vishnu e Shiva não passam de manifestações em mâyâ, cuja duração corresponde apenas ao “mental” do homem e do universo; além deles subsiste somente o Brahman, o Real e Absoluto, inacessível a atos cultuais, austeridades ou concepções mentais.
  • O verdadeiro espiritual, o tadvid, não é aquele que apenas ouviu ou leu os ensinamentos, mas aquele que os encarnou na vida e decidiu libertar-se do mundo de mâyâ a qualquer preço, pois uma vez compreendido o essencial, não se pode mais contentar com ritos, simbolismos ou mitologias, mas busca-se o kevala, o esseulement final, mesmo além dos Vedas.
  • O caminho para o Real exige desejo unificado e purificado, que reduz gradualmente as necessidades do corpo, dos sentidos e do intelecto, conduzindo a alma ao recolhimento interior absoluto, pois nem mesmo o Guru pode mais do que indicar o rumo e testemunhar sua meta.
  • O itinerário da alma passa da adoração de formas naturais e cósmicas — Sol, akasha, prâna — para o reconhecimento de que o Mistério divino habita no mais profundo de si mesma, no Soi do soi, realidade única subjacente a todas as manifestações.
  • As Upanishads testemunham que “esse âtman é o lugar de todo ser” (Br. Up. 1, 4, 16), que é preciso olhar, ouvir, pensar e meditar o Soi (Br. Up. 2, 4, 5-6), pois somente nele se encontra a não-morte e o Brahman total.
  • A realização espiritual consiste em reconhecer a não-dualidade transcendental, sintetizada na fórmula tat tvam asi, “tu és isso”, e na experiência do turya, estado místico descrito como “invisível, inaproximável, impensável, sem dualidade: shântam, shivam, advaitam” (Mân. Up. 7), bem como no neti neti das negações apofáticas (Br. Up. 4, 5, 15).
  • A Índia mística não concebe um Deus-monarca exteriorizado, mas um Absoluto que se encontra no centro do universo, despojado de forma e nome, pura consciência e bem-aventurança essencial, cuja proximidade o torna inefável ao espírito humano.
  • O sábio formado pela tradição hindu busca sua realização no presente eterno, na eternidade do instante, e não em um futuro imprevisível.
  • A apresentação do Cristianismo à Índia deve necessariamente integrar essa intuição fundamental da interioridade espiritual, sob pena de reduzir-se ao nível do nâma-rûpa, mundo de nomes e formas, e de ser assimilada a uma mitologia provisória sem valor absoluto para a salvação.
  • O Cristianismo possui também essas dimensões do “dentro”, pois a revelação de Jesus consistiu essencialmente em interiorizar a expectativa messiânica judaica: “Quem me ama, será amado de meu Pai... viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo. 14).
  • A tradição cristã viu nascer ao longo dos séculos almas místicas que viveram no “fundo”, assim como teólogos que integraram a experiência interior em suas sínteses, de modo particular um Cirilo, um Agostinho, um João Escoto Erígena contemporâneo de Shankara, e os místicos renanos e flamengos como Ruysbroeck, Tauler e Mestre Eckhart.
  • Apesar de conhecidas, essas experiências não exerceram toda a influência que poderiam no desenvolvimento espiritual cristão, devido ao racionalismo ocidental que sempre receou o mistério do além interior, temendo perder pensamento, individualidade e limitações humanas; mas o Evangelho já havia ensinado que “quem perder sua alma a salvará”.
  • A Índia não partilha dessas angústias diante do abismo da Deidade, pois relativiza o mundo e até a consciência individual, arriscando-se audaciosamente no acesso ao Absoluto, o que implica perigos, mas sem risco não há conquista espiritual.
  • Se os Rishis hindus desceram ao encontro do Absoluto, tanto mais os Rishis cristãos poderão fazê-lo quando a guha interior das Upanishads for iluminada pela luz do Cristo, a verdadeira Luz que dissipa toda treva, inclusive a treva de Deus.
  • A Índia aguarda dos místicos e teólogos cristãos uma apresentação centrada nas dimensões interiores da fé, única capaz de tornar o Cristianismo desejável e aceitável para as almas hindus em busca sincera de Deus.
  • Nesse encontro, a Índia poderá penetrar também no interior de Jesus, em seu Coração sagrado, centro da unidade no Espírito, em comunhão com o Pai e com todos os homens como irmãos.