Tradução de Antonio Carneiro das páginas 989, 991 e 993
Tratados Vários
IX No Domingo de Páscoa
Não sou capaz de expressar com palavras o que concebo em minha mente, nem minha língua alcança manifestar a alegria de meu coração. Mas não sou o único que, desejando vos expor meus sentimentos, padece deste tipo de pesares; também vós sofreis comigo, regozijando-os mais em vossos interiores que atinando a expressá-los por palavras. Parece-me que este dia é mais radiante que todos os demais, que o sol brilha para o mundo com mais esplendor, como também os astros e todos os elementos se alegram, e que aqueles que durante a paixão do Senhor haviam apagado sua luz e haviam se eclipsado desejosos de não contemplar crucificado a seu Criador, voltam a cumprir seu objetivo seguindo a seu Senhor, que agora se mostra vitorioso e ressurge (se é possível falar assim) dos infernos com todo seu esplendor. O céu crê, a terra crê; mas a rede com que se capturou o mundo inteiro não pôde reter os judeus.
"Este é o dia criado pelo Senhor: alegremo-nos e regozijemo-nos nele" (Sal 117,24). Ao igual com a Virgem Maria, mãe do Senhor, é a primeira dentre todas as mulheres, assim dentre todos os dias este de hoje vem a ser a mãe dos demais. (414) O que vou lhes dizer resulta inaudito, mas acha ratificação nas palavras das Sagradas Escrituras: este é um dos sete dias da criação, e ao mesmo tempo não é. Este dia é qualificado de "oitavo", motivo pelo qual no título de alguns salmos se acrescenta como anotação "ao oitavo". Este é o dia em que morre a Sinagoga e nasce a Igreja. É o dia em que, em atenção à este número, oito seres vivos se puseram a salvo na arca de Noé1 . "Do mesmo modo — disse Pedro — , também a Igreja vos salva."(1Pd 3,21). Este é o dia a propósito do qual o Eclesiastes (11,2) formula a seguinte prescrição: "Dai uma parte à sete, e inclusive à oito"2 . Estes são os oito degraus pelos quais, segundo Ezequiel (40,31), ascendemos ao templo de Deus. Este é o oitavo dia, à cujo mistério e à fé de todas as nações em Cristo se refere precisamente também o salmo oitavo, que começa assim: "Senhor, nosso Senhor. Quão admirável é teu nome em toda a terra!"(Sal 8,2).
Que necessidade tenho a andar detendo-me em explicações que resultariam infinitas? Um dia não seria suficiente se quisesse dar-vos conta de tudo relativo ao mistério deste dia. Limitar-me-ei a dizer que a graça inteira do sábado e aquela antiga festividade do povo judeu foram trocadas pela solenidade desta data. Eles não realizavam durante o sábado tarefa servil alguma; para nós, por outro lado, isto sucede no domingo, quer dizer, o dia da ressurreição, pois nesse dia não servimos ao vício nem ao pecado. "Pois servo é quem comete pecado" (Jo 8,34). Eles não saem de suas casas; nós, de nossa parte, ao estarmos na Igreja, não saímos da casa de Deus. Eles, durante o sábado, não acendem fogo algum; nós, ao contrário, acendemos em nós o fogo do Espírito Santo, purificando-nos de toda mácula e pecado; acerca deste fogo disse o Senhor: "Vim trazer fogo à terra, e que quero senão que arda?"(Lc 12,49). O Senhor deseja que este fogo arda em nós e que, segundo o apóstolo Paulo (Rm 12,11), o avivemos com o Espírito Santo para que o amor em direção a Deus não se esfrie em nossos corações. Durante o sábado, eles não saem para caminhar, porque perderam Aquele que disse:"Eu sou o caminho" (Jo 14,6); nós, por outro lado, dizemos: "Bem-aventurados quem se mantém sem mancha em seu caminho, quem caminha ajustando-se a lei de Deus"(Sal 118,1). (415) E também: "Elegei a senda da verdade" (Sal 118,30) e "Mostra-me o caminho de teus mandamentos" (Sal 118,27). Eles coroaram de espinhos o Senhor; nós, pelo contrário, como se fôssemos pedras preciosas, servimos de coroa a nosso Senhor. Um diadema adorna a cabeça do imperador deste mundo; e precisamente para que adornemos a cabeça de nosso Rei se nos há colocado nela. Eles não aceitaram a Cristo, mas sim ao Anticristo; nós, por nossa parte, recebemos ao humilde Filho de Deus para possuí-los triunfante depois. E, por fim, nosso Cordeiro é imolado diante do altar do Senhor; o deles, o Anticristo, cuspido e maldito, é lançado no deserto3 . Nosso ladrão entra no paraíso junto com o Senhor (Lc 23,43); por outro lado, o deles, um blasfemo e homicida, morre com seu pecado. Em benefício deles deixam em liberdade à Barrabás; em benefício nosso se dá a morte a Cristo.
Por tudo isso cantemos e regozijemos nele"(Sal 117,24). Hoje Cristo, em companhia do bom ladrão, afastou aquela espada flamejante (Gen 3,24) e abriu a porta do paraíso, que ninguém pôde forçar; hoje Cristo ordenou a seus anjos: "Abri-me as portas da justiça: entrando por elas, entoarei louvações para o Senhor"(Sal 117,19). Com efeito, essa porta, uma vez aberta, não se fecha nunca aos crentes. Desde o momento da paixão do Senhor até o dia de hoje, essa porta permanece sempre fechada para uns e aberta apara outros: fechada encontra-se para os pecadores e incrédulos, e aberta para os justos e crentes. Por ela entrou Pedro; por ela entrou Paulo; por ela entraram todos os santos e os mártires; por ela entram a diário as almas dos justos do mundo todo. Tem duas portas: a da Igreja e a do paraíso. Pela porta da Igreja temos acesso a porta do paraíso. Temos de viver de tal forma que não se nos expulsem daquela casa e, arrojados dela, refere-se nestes termos: "Não entregues às feras a alma que te louva" (Sal 73, 19). Olhai com agora o Senhor, que se acha diante da porta do paraíso, fala para nós, que nos encontramos reunidos em sua casa, e nos diz: "Esta é a porta do Senhor, entrai, justos por ela". (416) E qualquer justo que por ela entrar, ainda que o diabo trate de impedi-lo e ainda que o inimigo o acuse — pois certamente o demônio é o "acusador de nossos irmãos" (Ap12,10) e um adversário vingativo — esse justo, como se afirma no salmo CXXVI 5, "não se verá confundido, enquanto a porta litigar com seus inimigos".
Notas