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id da página: 631 Gnosticismo – Émile Gillabert – Natureza do Reino Emile Gillabert

Gillabert Natureza Reino


GILLABERT, Émile. Paroles de Jésus et pensée orientale. Montélimar: Métanoïa, 1974

Na sua busca pelo Absoluto, o homem ocidental sempre teve a tendência de encarar a salvação sob uma forma que lembra de perto ou de longe o credo cristão, também dito símbolo dos apóstolos, cujos artigos de fé são objeto de dogmas intangíveis; o homem oriental, por outro lado, coloca a ênfase na libertação que se obtém pelo Conhecimento. Procurando um remédio para a miséria do homem, o oriental quis remontar à fonte do mal; chegou à constatação de que é em virtude de uma ilusão que tudo parece caminhar mal no homem: este, não despertado, está sob o império dos seus sentidos e do seu mental: assujeitamento deplorável, pois dele resultam crenças ilusórias, a mais importante sendo a do seu próprio servilismo. Na realidade, o homem não está servil; tem apenas a ilusão de o estar. Pois, sendo da mesma substância que a realidade infinita da qual provém, não poderia conhecer servidão. A sua visão é falseada pelo fato de se considerar como uma entidade distinta da realidade. Não se dá conta de que é simples continuação dela, à semelhança do mundo fenomênico que continua o mundo numênico do qual provém.

A realidade infinita foi frequentemente nomeada o Si, para a distinguir do eu que representa o homem alienado: afastado do seu Princípio. Os textos sagrados mostram a natureza e as relações do Si e do eu. Mesmo se a terminologia varia quando se passa do hinduísmo ao Chan ou ao sufismo, as noções fundamentais são idênticas. As Escrituras ensinam que, quando o homem está realizado, não há mais tela entre o seu eu e o Si universal: plenamente desperto, realiza que não faz mais do que um com o Absoluto. Ao afirmar peremptoriamente a unidade com o seu Princípio, o Pai: o Pai e eu somos um, Jesus diz na linguagem que é a sua o que a metafísica ensina desde sempre: eu sou Brahman, eu sou o Buda, eu sou Deus. Se não se tem, desde agora, a plena consciência disso, é devido às pretensões do eu que se afirma como uma entidade distinta do Si.

A identidade do eu e do Si é familiar ao pensamento hindu. Encontramo-la nas Upanishads: De adorador torna-se um com Brahman. A realidade suprema pode apenas permitir a realização da sua verdadeira natureza; o sábio Yajnavalkya, para fazer compreender esta noção à sua esposa Maitreyi, dirige-lhe a seguinte linguagem:

Em verdade, não é o marido que a esposa ama, mas o Si que está nele.
Em verdade, não é a esposa que o marido ama, mas o Si que está nela.


O sábio repete a mesma verdade a propósito das crianças, dos deuses e de todos os seres, e termina com estas palavras:

Em verdade, minha cara Maitreyi, é preciso realizar o Si, ouvir falar dele, refletir sobre ele e meditar nele.
Quando se realizou o Si porque se ouviu falar dele, se refletiu sobre ele e se meditou nele, tudo é conhecido.


Enquanto não houver identidade entre o Si e o eu, o homem vive no dualismo, e é a visão dualista do mundo que engendra o sofrimento e o asservimento, que vela o Criador aos olhos da sua criatura. Quando a alma que estava adormecida pela ilusão... acorda, percebe a não-dualidade eterna, sem sono, sem sonho. Assim atestam os sábios que foram à outra margem do conhecimento, libertos do desejo, do medo e da ira.

IDENTIFICAÇÃO COM O PAI

Jesus não precisava de se referir ao patrimônio da tradição, pois levava-a em si. No entanto, nós precisamos, para compreender a sua mensagem, não do prisma deformante dos seus comentadores, mas, como já foi dito, do fio condutor da Verdade intemporal. Não que as palavras de Jesus não se bastem a si mesmas: não é ele, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida? Mas que homem pode compreendê-las plenamente, vivê-las? A gênese dos evangelhos testemunha com eloquência a ignorância dos seus redatores e os erros que daí resultaram.

Sem se reclamar de uma tradição, Jesus ensina que o cumprimento vai no sentido de um retorno à Unidade. O criado deve rejoinar o Incriado, ser absorvido até à identificação. Evita empregar a palavra Deus que, na religião, corresponde ao demiurgo oposto a Satanás. No Evangelho segundo Tomé, é a palavra Pai, com a qual Jesus se identifica, que designa o Princípio. O Pai está acima do demiurgo da antiga Aliança, como a Deidade está acima de Deus criador: Jesus tem o cuidado de estabelecer a hierarquia:

Dai o que pertence a César a César, dai o que pertence a Deus a Deus, e o que é meu, dai-mo.


São Paulo, por outro lado, emprega muito frequentemente a palavra Deus, o que permite, aliás, medir a influência paulina nos canônicos. Lucas e Marcos, como era de esperar, falam do reino de Deus, Mateus, do reino dos céus, quanto a João, substitui Reino por vida eterna. No entanto, a palavra Pai é empregada por ele para marcar as relações do Filho com a divindade. A expressão reino do Pai, no Evangelho segundo Tomé, presta-se menos a confusões do que a de reino de Deus, o Pai significando, na boca de Jesus, o Absoluto ou a Deidade de Mestre Eckhart, ou ainda ao mesmo tempo o Ser e o Não-Ser dos metafísicos, que abraça o criado e o Incriado. Entende-se naturalmente não nos limitarmos a uma simples afirmação: o nosso trabalho, subsequentemente, terá de verificar no plano de um ensino universal o valor desta asserção da qual queremos assumir a plena responsabilidade. Sabe-se, de fato, que nos expomos ao mesmo tempo às acusações dos homens da Igreja que nos taxarão de heresia e aos orientalistas experientes que nos acusarão de sincretismo, objetando que o ensino de Jesus se reduz a um monismo ou a uma teosofia que ficam aquém da não-dualidade.

Jesus emprega sempre uma linguagem imagética que não deixa lugar a nenhuma flutuação entre a realidade e o vocábulo que a designa, a nenhuma elucubração mental entre a coisa e o nome, daí o caráter eminentemente concreto das suas palavras. Todo o desenvolvimento abstrato que quer explicitar a linguagem de Jesus, seja teológico ou filosófico, enfraquece-o e trai-o. O plano da imagem corresponde ao plano metafísico:

As imagens salvo manifestadas ao homem e a luz que está nelas está escondida.
Na imagem da luz do Pai, ela desvelar-se-á
e a sua imagem será escondida pela sua luz.


É a intuição intelectual resultante da pesquisa, e não as elucubrações mentais, que permite passar de um plano a outro, de se render à evidência e de transformar depois a "clareza" em luz, a descoberta em alimento.

O pai e a mãe são tudo para a pequena criança. Um dia descobrirá que eles têm o seu prolongamento, a mãe na natureza, o pai na lei moral e social. Graças a eles, será introduzido num outro mundo. Em Jesus, a pedagogia está adaptada à metafísica, faz corpo com ela. Voltaremos a isso. O vocábulo pai representa uma entidade humana que permite responder à expectativa da pequena criança; ora, como partimos do mundo manifestado, não surpreende ver Jesus empregar este vocábulo para designar a realidade suprema com a qual se identifica. Jesus tinha na sua presença pessoas simples; utilizava para conversar com elas uma linguagem simples. O dispensador do Reino é o Pai. Não fala de Deidade ou de Absoluto; no entanto, tudo se passa como se a palavra Pai cobrisse essa realidade. Não se pode, além disso, penetrar o seu ensino sobre o Reino sem ultrapassar o conceito dualista do bem e do mal, de Deus e de Satanás. A metafísica, própria do Oriente, que apenas no Ocidente Mestre Eckhart aprofundou, permite uma justa apreciação das palavras de Jesus.

Na doutrina hindu, o Si é idêntico à realidade suprema, é ao mesmo tempo sem forma e informado; sem forma, representa a realidade não manifestada, chama-se-lhe também Brahman; informado, designa essa mesma realidade manifestada, chama-se-lhe então Atman. Assim Brahman e Atman exprimem dois aspectos de uma realidade única, o Si. Da mesma forma, o Pai e o Filho exprimem dois aspectos do Reino, o Pai, o aspecto incriado e o Filho, a realidade manifestada. O Reino corresponde portanto ao Si, correspondência, assim como se verá, muito importante para a compreensão em profundidade das palavras de Jesus.