Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 7471 García Bazán – Jesús o Nazareno

Garcia Bazan Jesus Nazareno

Francisco García Bazán – Jesús o Nazareno


GARCÍA BAZÁN, Francisco. Jesús el nazareno y los primeros cristianos: un enfoque desde la historia y la fenomenología de las religiones. Buenos Aires: Grupo Editorial Lumen, 2006

Pois bem, este indivíduo aludido [Jesus histórico] de inconfundíveis contornos históricos, recebeu diferentes nomes de escritores não cristãos: “Jesus, o Cristo” da parte do historiador judeu Flávio Josefo (circ 90), “Cristo” —com o sentido de agitador— pelos historiadores romanos Tácito, Suetônio e Plínio o Jovem (primeira metade do século II), o “Filho de Panthera”, pelo filósofo medioplatônico Celso (s. II), o de “Jesus”, “Jesus de Nazaré”, “Galileu” ou o “Rabi da Galileia”, por parte de censores mais tardios do movimento cristão como Porfírio ou o Imperador Juliano (cerca de fins do século III e s. IV, respectivamente). Com anterioridade a estes dados, a literatura dos rabinos o chamou “Ben Panther[a]” —filho do soldado romano Pantera, de onde Celso tomou sua designação— (ver Talmude da Babilônia [Shabat 116a, D. Rokéah, 118; H. W. Basser, 7576]) e seus parentes e amigos que o frequentavam frequentemente o chamavam familiarmente “Jesus”, isto é Yeshua, um nome de pessoa muito comum e difundido na Palestina da época e que na pronúncia galileia é Yeshu e que não é mais que a forma abreviada do nome primitivo e amplo Yehoshua, Josué. Mas quando aparecem testemunhos iniciais sobre sua pessoa como figura pública, ele é identificado como Jesus de Nazaré. Jesus o Nazareno entendido indicativamente, como o profeta que provém geograficamente de Nazaré da Galileia (Mt 21, 11; At 10, 38; Jo 1, 45), às vezes também chamado com o mesmo fim “Galileu” (Mt 26, 69 e 26, 71; At 1, 11; Jo 1, 46); ou bem, mais acertadamente, Jesus o Nazareno, mas não como nome estritamente toponímico, mas gentílico, ou seja, não adquirido do nome da localidade de Nazaré —uma aldeia sem maior fama naquele tempo—, mas por ser membro de um grupo davídico particularizado por sua pertença a um clã familiar de ascendência religiosa, chegado a ser com o tempo uma confraria (habara) especial de crentes. Nazarenos ou nazoraios (Mc 1, 24; 10, 47; 14, 67; 16. 6: Mt 2, 23; 26. 71; Lc 18, 37; Jo 18, 5; 18, 18, 7; 19, 19; At 2, 22; 3, 6; 4, 10; 6, 14; 22, 8; 26, 9) relaciona-se com Nazara, nome primitivo de Nazaré —em aramaico Nashrat— (Mt 4, 13 e Lc 4, 16: Q 4, 16 e Júlio Africano em Eusébio de Cesareia, Historia Eclesiastica I, 7, 14), lugar fundado por estes davidianos em relação com a profecia de Isaías 4,2; 11, 1; 45, 6-7; Jer 23, 5-8 e 33, 15-16; Za 3, 8 e 6, 12, recolhido pelas diversas versões targúmicas —M. Pérez Fernández, 260-263 e capítulo III—, e assim o ratifica o trecho evangélico: “E (José) foi viver em uma cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o oráculo dos profetas: “Será chamado Nazareno (nazoraios)” (Mt 2, 23; trata-se também da cidade paterna: Mc 6, 1; Lc 4, 23; Mt 13, 14). Por este motivo o advogado Tértulo, acusador de Paulo de Tarso perante o procurador romano, o assinala como “chefe da confraria (hairesis) dos nazarenos (nazoraios)” (At 24, 1), o que negará, porque seu norte missionário olha para outros fins. Para uma testemunha hierosolimitana dos tempos fundacionais, dizer “nazarenos” equivalia ao que mais tarde será dizer “cristãos” (khrestianoi/khristianoi) denominação, no entanto, que começará a ter vigência posteriormente em Antioquia (At 11, 26). Porque o nome de “nazarenos” deve-se pensar que foi a autodenominação que os familiares crentes no messianismo de Jesus e seus discípulos imediatos seguiam adotando espontaneamente para si, embora este com sua conduta e condenações públicas a tivesse posto religiosa e politicamente em crise. Coerentemente, as posteriores gerações de judeo-cristãos conservaram o nome. Os seguidores de Santiago o Justo —cuja dimensão religiosa pessoal possui características próprias, ver capítulo III—, estritamente se conheciam a si mesmos enquanto membros da corrente religiosa renovada por Jesus, como Nashraja (nazarenos) termo aramaico que levarão consigo diretamente para a Síria os primeiros cristãos orientais de origem judeocristão. Um vocábulo individual e coletivo que grecizado como o estamos usando será “nazoraios-nazarenos” e hebraizado, “noshri”. Deste modo, quando anos antes Pôncio Pilatos ordenou pôr sobre a cruz de Jesus a inscrição: “Jesus Nazareno, o rei dos judeus” apresentava na tabuleta identificadora (titlos) do réu, tanto o nome do condenado a ser executado como a culpa da condenação (R. Brown, II, 1193-1194; R. Schnackenburg, III, 334), assinalando como o escreve o médico Lucas em At 3, 16 e 4, 10, que Jesus o Cristo, o Messias, é por antonomásia o Nazareno, como são nazarenos os ascendentes da família davídica de José e os descendentes que dele provêm —a família por parte de pai de Jesus— e que posteriormente vão constituir religiosamente o grupo em crescimento dos nazarenos e cristãos. Deste modo mais tarde o confirmam igualmente a prova das sete facções vigentes em Jerusalém antes que a controvérsia das heresias começasse, entre as quais se conta a dos nazarenos e ebionitas, segundo Hipólito —Constituições 6, 6— e Epifânio —Panarion I, 11— (cf. B. Pixner, “Nazoreans on Mount Zion (Jerusalém)”, 300 e 303304 e É. Nodet-J. Taylor, 256-261). Existiu razoavelmente —atendo-se aos mesmos critérios de interpretação— um antigo Evangelho dos Hebreus ou Nazarenos que remonta à segunda metade do século I, conhecido por Papias, Inácio de Antioquia, Hegesipo, Clemente de Alexandria, Orígenes e Jerônimo, e que segundo este último, “tinham em uso os nazarenos e ebionitas (... e que a maioria chama o autêntico de Mateus —Mattheaei authenticum—) ” (veja A. de Santos Otero, Los evangelios apócrifos, 29-47).

Por tudo o dito, tampouco deve chamar a atenção, mas pelo contrário servir de confirmação, que dentro do gnosticismo o Evangelho de Filipe (NHC II, 3) tenha conservado o sentido de todos estes nomes, reunidos e explicados: “‘Jesus’ é um nome oculto e ‘Cristo’ é um nome revelado. Por este motivo ‘Jesus’ não existe em nenhuma língua, mas seu nome é ‘Jesus’, como é chamado” (ver Mt 1, 21 onde o anjo diz a José: “(lhe) porás o nome de Jesus, porque ele salvará seu povo de seus pecados.”) “Mas ‘Cristo’ é também seu nome: em siríaco é ‘Messias’ e em grego é ‘Cristo’. Certamente todos os outros o possuem segundo sua própria língua. O ‘Nazareno’ é o que revela o que está oculto. O Cristo tem tudo em si mesmo, seja homem, anjo ou mistério do Pai” (56, 5-15). Advirta-se que enquanto que “Jesus” é o nome propriamente dito e com capacidade mistérica —“Jesus é um nome especial” dizem os seguidores do valentiniano Marcos, segundo Ireneu de Lião em Contra os hereges I, 14, 4—, “Nazareno” é o nome secreto oculto e prometido no desígnio de Deus Pai e Cristo sua consumação temporal para que a história conclua. A exegese coerente do documento gnóstico achado no lote de escrituras em copta descobertas em 1945 no Alto Egito, encerra a síntese de quanto conhecemos e se explicou sobre os nomes reais do Salvador galileu (ver García Bazán, 1989). E de maneira ainda mais misteriosa e estranha o expressa o livro da mesma biblioteca, o Evangelho dos egípcios (NHC III, 2 e IV, 2) 64, 10 e 66, 10: “Yeseo Mazareo Yesedeceo” (Textosgnosticos II, 121-122 e nn. 20-21).

Agora bem, se o verdadeiro nome de Jesus para a história é o de “Jesus o Nazareno”, o personagem real que se projeta para o futuro é mais que o Jesus histórico, o Cristo histórico. Não há justificação para separar o Jesus espaço-temporal aludido do chamado Cristo da fé que o círculo estreito dos primeiros cristãos experimentou. O Cristo da fé é uma crença válida para os cristãos posteriores —a imensa maioria— que experimentaram e vivem os eventos pascais mediatamente, mas não para as testemunhas da Ressurreição que os experimentaram imediatamente. Porque o Jesus da história e o Cristo da Ressurreição são inseparáveis na experiência unitária e única de Jesus o Nazareno, o que encerra em si tanto os momentos anteriores à morte e ressurreição como as instâncias pascais e pós-pascais. Ambas as coordenadas temporais vão unidas, só que antropologicamente mudadas.

Talvez subjacendo ao clima polêmico imediato entre o valor da fé e da gnose, se faça menção a este fato extraordinário, mas de exceção e para poucos, o sentido profundo com projeção de futuro da expressão de Jo 20, 29: “Creste porque me viste. Bem-aventurados os que, mesmo não vendo, creem”.

El Cristo histórico


Frente a tudo o dito sobre o Jesus histórico, costuma-se sustentar que algo diferente é o Cristo da fé, já que aos dados anteriores, que sim podem ter um caráter histórico, devem-se adicionar outros que têm a ver com as crenças, com a forma como estes seguidores de Jesus admiraram e interpretaram essa figura. E aí sim que se intervêm outros elementos. O primeiro, as características que atribuem a sua morte. O segundo, ainda mais extraordinário, o fato de que se trate de um Cristo ressuscitado. E terceiro, o que se foi elaborando em pouco tempo em relação a estes acontecimentos extraordinários, trata-se de um homem a quem divinizaram, e o divinizaram como o Cristo, ou seja, como o Messias (o Khrestos ou Khristos em língua grega que é o Masiah ou Messias original do idioma hebraico-aramaico). Tudo isso pertenceria à esfera do Cristo da fé.

No entanto, este livro tem o atrevimento de falar do Cristo histórico. Uniu-se o Jesus da história com o Cristo da fé na etapa dos primeiríssimos tempos cristãos. E isto por que? Em primeiro lugar, porque temos indícios de historiadores que o tratam assim quando o fenômeno se observava sem preconceito. Concretamente, o primeiro dado que proporciona um historiador reconhecido como um historiador oficial: Flávio Josefo. E em segundo lugar, por outro motivo, que consideramos mais importante ainda e que avaliza o anterior, porque o fenômeno da ressurreição, o fenômeno das aparições de Jesus depois da morte física, oferece umas características de manifestações espontâneas e de experiências coletivas e individuais que vão além da simples distinção entre o histórico e o digno de fé. É um fenômeno diferente, e quando se aprofunda fenomenologicamente nele, se adverte que é um tipo de conhecimento que excede estas distinções (veja-se o capítulo II), e este tipo de experiências ocupam a etapa temporal que chega até o evento da Ascensão aos céus e sobre ele estão de acordo —sob diferentes pontos de vista—, protocatólicos, judeocristãos e gnósticos, varões e mulheres.