Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz
Marsilio Ficino e Giovanni Cavalcanti saúdam o poeta Naldo Naldio.
Suas cartas tão requintadas chegaram a nós exatamente no momento em que a lua se unia a Marte em linha reta. Quem teria acreditado quanto se poderia conjecturar, a partir do próprio céu, que essas cartas haveriam de vagar com certa instabilidade lunar e estarem cheias do furor e do ódio de Marte? Pelo contrário, não o estão de modo algum. Naturalmente movem-se com um impulso não inferior ao da lua, mas tornam-se maravilhosamente mais suaves pela sublime harmonia entre Uranio e Calíope. Não resplandecem sob o signo de Marte, mas sob o de Vênus. Não fervem de ódio, mas de caridade. Nisso percebemos claramente que tanto o poético quanto o astronômico são verdadeiros: que Marte é, sem dúvida, vencido e subjugado por Vênus. Também é verdadeiro o teológico, pois o furor divino, evidentemente tão superior aos movimentos celestes, de modo algum se submete às estrelas, mas as governa.
Havendo quatro espécies de furor divino — segundo o parecer de nosso Platão —: amor, adivinhação, mistério e poesia, o amor atribui-se a Vênus, a adivinhação a Apolo, o mistério a Dioniso e a poesia às Musas. O amor em si divino, pelo qual tu nos escreves arrebatado, é considerado o mais excelente de todos por duas causas: uma, sem dúvida, porque os demais furores, sem a inspiração do amor, jamais permanecem fiéis nem se comparam com a própria questão em torno da qual o ânimo se inflama de furor; outra, porque o amor, quando torna amargo o amante, sempre que se dirige a algo mais elevado, com o pensamento mais próximo de Deus, une-se aos outros furores.
Assim, se começamos a louvar teu furor amoroso por sua dignidade, necessitaremos do furor poético. E como as Musas não aspiram a estar conosco, porque não podemos louvar com poesia, ao menos o tentamos com amor recíproco, e sempre o tentaremos.