Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz
Marsilio Ficino a Pedro Divício, ilustríssimo em letras e costumes.
Tendo ouvido, no Banquete de nosso Platão, aqueles que longamente discutiam acerca do amor, desejaríeis, além disso, algum tipo de resumo sobre tal tema; por essa razão, trouxe um pequeno livro sobre o assunto, o qual deveríamos ler na adolescência, excelente segundo nossa capacidade poética, e composto para Peregrino, outro adolescente. Recordo-me, com efeito, de quão maravilhosamente te agradava ouvir que o amor em si não é verdadeiramente luxúria, mas como uma espécie de furor incitado por inspiração divina nas mentes elevadas. Ademais, o furor divino, à semelhança de outro qualquer, contém em si quatro espécies: o amor, a poesia, a adivinhação e o mistério. E, com efeito, o amor provém de Vênus, a poesia das Musas, a adivinhação de Apolo e o mistério de Dioniso. Em suma, segundo tal doutrina, as mentes humanas são movidas ora por um arroubo, ora por outro, muito mais do que por diversos furores simultâneos.
Restava apenas investigar, sapientíssimo Pedro, se de algum modo a mente poderia ser animada, por assim dizer, por múltiplos deuses ao mesmo tempo, excitada, portanto, por diversos furores. Na verdade, não parece questão difícil no que toca ao amor e à poesia. Não duvidamos, com efeito, de que Homero, Píndaro, Calímaco, Safo e Marão foram agitados por um instinto simultaneamente poético e amoroso. Epimênides e a Sibila foram movidos, além disso, pela adivinhação. Mas, além disso, somente aqueles gerados pelos deuses puderam, segundo se diz, ser também inspirados pelos mistérios: assim como os antigos povos afirmam ter sido Orfeu, assim os nossos dizem que foi Davi.
Também nós conhecemos o engenho mais afortunado de nosso século: expressou esses quatro dons e igualmente o furor que segue os quatro êxtases, sem dúvida poético e amoroso, sob a influência das Musas e de Vênus celeste; e isso já há muito tempo, ainda na flor da adolescência. Com efeito, fazia soar por toda parte os versos admiráveis de seu dulcíssimo canto. Mas, já adulto, obteve de Apolo a adivinhação, com a qual aquele que vem do céu estimula de modo admirável, por certa sagacidade do espírito, pressagiando frequentemente os momentos decisivos do futuro, tanto em público quanto em privado, manifesta a mão curadora ante os perigos, e cura imediatamente com virtude febeia.
Já quase maduro, obteve afortunadamente de Dioniso o furor místico. Os antigos teólogos definiram a embriaguez dionisíaca como uma alienação da mente que se afasta das coisas mortais e penetra, sem dúvida, nos mistérios secretos da divindade. Baco ama as colinas. Nas colinas de Ambra e de Agnana, o vigoroso Lourenço, o febeu, enlouquecia por toda parte, embriagado pelo néctar dionisíaco. Então, inspirado, derrama do alto, com voz perfeita, cânticos celestiais acerca do homem, nos cujos sentimentos profundos jamais é permitido a ninguém penetrar, a não ser aos engenhos arrebatados por furor semelhante.
Nosso Patrono, sem dúvida, arrastou alguma vez consigo alguns dos que o escutavam com grande atenção e júbilo, inflamado de furor em relação a eles, mais do que ao restante. Com tal intento, com efeito, estando ele mesmo excitado, é capaz de arrebatar os demais quase com o mesmo êxtase; o que demonstra nosso Platão no livro intitulado Ion. Quando sob uma grande pedra hercúlea se coloca um pequeno anel de ferro, facilmente atraído, um segundo anel é imediatamente ligado ao primeiro, um terceiro ao segundo, um quarto a este, e assim sucessivamente. E termina-se a cadeia de anéis pendentes de um ímã, através dos quais a virtude da atração se transfere de súbito do anterior ao seguinte.
Com o mesmo raciocínio, crê-se que a Musa é arrebatada por Febo, o poeta por ela, e, de modo semelhante, o auditório é arrebatado pelo poeta. Virgílio representa, por acaso, este mistério com os seguintes versos: “O que o Pai onipotente predisse a Febo, a mim o predisse Febo Apolo; a vós, Súrías, o estendo em grande medida.” Contudo, não quisera ter nomeado as Súrías por ora, quando tratamos não do furor das Súrías, mas do furor das Graças.
Por isso, nosso prolixo Patrono, afortunado Pedro, até a ti, assim como a mim e a seus outros observadores, constantemente comove, arrebata, tomado de furor, apodera-se de nós arrebatados, e, possuindo-nos, enche-nos de imediato de um gozo incomparável. Por esta razão, comovidos por benefício tão grande, perseveramos em amor tão ardente por ele e, frequentemente de modo extraordinário, proclamamos dia após dia a inspiração divina.
8 de junho de 1491