Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz
O valor da obra parece dever consistir, a partir deste ponto, em explicar um pouco mais amplamente os mistérios principais deste livro. E, em primeiro lugar, aquilo que omiti acerca da poesia e dos demais furores, tanto aqui quanto no Fedro, e que não expus em outro lugar.
Convém, para alcançar o furor poético com que os homens de costumes divinos são instruídos e os mistérios divinos são cantados, que o ânimo do futuro poeta esteja de tal modo sensibilizado que se torne quase tenro e suave. Antes de tudo, que seja puro. O domínio do poeta é amplíssimo e de matéria muito variada. O ânimo, portanto, instruído por si mesmo com muita facilidade, deve submeter-se a Deus como instrutor. O que, com efeito, se manifesta por meio da suave ternura.
Todavia, se por uma disposição dessa natureza houver já adotado costumes alheios ou corrompidos, não poderá ser instruído ao mesmo tempo por condutas divinas; por isso acrescenta Sócrates que deve ser totalmente puro — isto é, imaculado — e livre.
Mas por que razão enumerou a poesia em terceiro grau entre os furores? Mencionou primeiro a adivinhação, em segundo lugar o mistério, em terceiro a poesia e em quarto o amor. Com efeito, a adivinhação refere-se principalmente ao conhecimento, o mistério ao afeto: por conseguinte, o mistério sucede à adivinhação. A poesia, porém, já se volta para o ouvido. Os antigos poetas não compuseram hinos divinos antes de, estimulados por meio dos adivinhos e sacerdotes, julgarem conveniente celebrar, suplicar, conjurar e render graças aos deuses.
O quarto grau pertence ao furor amoroso; este costuma ser incitado pela vista, a qual, por natureza, utilizamos depois do ouvido. Além disso, por meio da adivinhação e dos mistérios reconhecemos Deus como sumamente bom. Deste modo, logo cultivamos o divino e o cantamos poeticamente. Mas ainda não concebemos o furor amoroso; somente depois de contemplar com maior atenção a beleza sensível, reconhecê-la-emos como divina. Finalmente, amamos a Deus enquanto belo, a quem, muito anteriormente, já havíamos apreciado enquanto bom.
No Banquete e no Ion dispusemos a ordem dos quatro furores no que diz respeito à restauração da alma. Aqui, porém, tratamos de sua origem em si mesma. Contudo, apraz-me condescender um pouco mais com os poetas. Cada um é possuído de algum modo por um gênio, certamente em razão da própria veemência do ímpeto divino e da plenitude da virtude; dele se enche, é incitado, transportado, e ultrapassa os limites e os costumes humanos.
Dessa forma, tal possessão ou arrebatamento chama-se, sem que seja injúria, furor e alienação. Mas nenhum possesso se contenta com o discurso simples: chega à aclamação, aos cantos e aos versos. Por isso, qualquer furor — seja profético, seja de mistério, seja amoroso — enquanto progride em direção aos cantos e aos versos, com razão parece desatar-se no furor poético.
Com efeito, o canto poético e o verso exigem acordes harmônicos; toda harmonia está inteiramente compreendida dentro do número nove que exprimimos na música do Timeu, e com razão o número novenário parece consagrado às Musas.
Finalmente, Sócrates, após ter já explicado três espécies de furor, acrescenta que possui mais ilustres obras do furor divino, isto é, as admiráveis realizações do furor amoroso. O amor era o que faltava. Assim, sob o amor somos restituídos à pátria celeste e unidos a Deus, e do mesmo modo aparecerá no que se segue.
O que se confirma com a maior precisão por meio do Apóstolo Paulo, quando, sem qualquer controvérsia, antepõe a caridade a todos os dons divinos existentes. Mas Sócrates, antes de afirmar que voltamos ao céu através do amor, detém-se em distinguir as múltiplas criações da alma, ora divina, ora humana. Primeiramente, em demonstrar a alma racional e sempiterna, conforme se pode provar, em examinar a beleza divina — outrora contemplada entre os deuses — e em recordá-la aqui mediante sua beleza sensível. E, a partir daí, em fazê-la retornar, excitada pelo amor, ao sublime e convertê-la em bem-aventurada.