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id da página: 2585 Ficino – Quid sit lumen – Apresentação de Bertrand Schefer Marsilio Ficino

Ficino Lumen Bertrand Schefer

Marsilio Ficino – Quid sit lumen – Apresentação de Bertrand Schefer

FICINUS, Marsilius. Quid sit lumen. Paris: Allia, 1998

Resumo

  • A Figura Histórica e Intelectual de Marsílio Ficino (1433-1499)

    • A morte e a lenda: Um testemunho da imortalidade da alma
      • Narra-se o episódio lendário da morte de Ficino, no dia 1 de outubro de 1499, no qual um misterioso cavaleiro branco confirmou a verdade das suas doutrinas a Michele Mercati, simbolizando o seu último esforço para demonstrar a imortalidade da alma.
      • Registra-se que este evento, consignado nas Annales de Baronius e na Vita Ficini de Corsi, ilustra o profundo impacto da sua personalidade e obra no pensamento do seu tempo.
    • Influência e legado no Renascimento
      • Destaca-se a influência sem precedentes de Ficino em uma vasta gama de espíritos do Renascimento, desde Giovanni Pico della Mirandole e Giordano Bruno até Sandro Botticelli e Baldassar Castiglione, solidificando a sua posição como uma das figuras mais importantes do Quattrocento.
    • Vida, missão e autorrepreentação intelectual
      • Apresenta-se o seu background como filho do médico de Cosme de Médicis, o seu nascimento em Figline, na Toscana, em 1433, e a incumbência, aos 24 anos, de traduzir e comentar as obras de Platão.
      • Cita-se a sua declaração a Cosme de Médicis – "Meu pai era médico dos corpos, eu serei médico das almas" – que define a sua missão intelectual e espiritual.
      • Descreve-se a sua carreira e autorrepreentação como um "médico, filósofo e teólogo", sendo visto pelos contemporâneos como uma verdadeira reencarnação de Platão.
    • O projeto de uma renovatio filosófica e religiosa
      • Identifica-se a sua intenção de uma reforma de profunda amplitude através de uma dupla renovatio: filosófica e religiosa.
      • Salienta-se o seu papel como tradutor incomparável do corpus platônico e hermético (Platão, Plotino, Jamblico, Proclo, Hermes Trismegisto) e como comentador e epistológrafo.
      • Explica-se que a constituição de um saber ancestral, presente nos prisci theologi (teólogos antigos), visava uma conciliação de doutrinas e crenças da revelação antiga, culminando na pia philosophia (filosofia piedosa) elogiada no De christiana religione (1474).
      • Define-se esta filosofia como uma construção especulativa com exigência moral, que celebra a humanidade e a liberdade do homem, cuja alma é o "vínculo reflexivo do ser" e a "unidade conciliadora de Deus e do mundo".
    • Obras principais e influência póstuma
      • Mencionam-se as suas obras mais conhecidas: o De amore (1469), fonte da filosofia do amor renascentista, e o De vita (1489), um tratado de medicina astrológica sobre influências celestes, magia natural e melancolia.
      • Constata-se que, apesar da sua profunda influência em toda a Europa durante quase dois séculos, o seu pensamento sobreviveu com dificuldade ao avanço racionalista do século XVII.
  • A Avaliação de Panofsky sobre o Movimento Ficiniano

    • A síntese de Panofsky: Uma força cultural maior
      • Cita-se o historiador da arte Erwin Panofsky, que descreveu o movimento herdado de Ficino como uma "das forças maiores da cultura ocidental" durante vários séculos.
    • O atrativo e a controvérsia do pensamento ficiniano
      • Resume-se a visão de Panofsky: o que tornou o movimento ficiniano irresistível para os espíritos do Renascimento foi precisamente a sua tendência para "confundir ou abolir todas as barreiras" que separavam e ordenavam os domínios do saber na Idade Média.
      • Explica-se que esta mesma característica é a que desagrada aos historiadores modernos da ciência e da filosofia, que definem a filosofia como análise do conhecimento e a ciência como análise matemática ou observação experimental precisa.
      • Conclui-se que estas barreiras teriam de ser reerguidas, em novas condições, por figuras como Galileu, Descartes e Newton.
  • O Quid sit lumen (1476) no Contexto da Obra de Ficino

    • Gênese e posição na obra ficiniana
      • Apresenta-se o Quid sit lumen como o último de cinco opúsculos teológicos que servem de iniciação à leitura da Theologia Platonica, a grande obra de Ficino, então em redação.
      • Informa-se que foi composto em 1476 durante um retiro na sua villa toscana de Careggi, sendo uma primeira versão do De lumine de 1492.
    • Um tratado exemplar: Sincretismo e tradição
      • Caracteriza-se o opúsculo como exemplar por recapitular uma doutrina que percorre toda a obra de Ficino e por marcar uma etapa decisiva numa longa tradição.
      • Identificam-se as suas múltiplas fontes: a filosofia natural de Aristóteles e São Tomás de Aquino; a antiga teologia astral evocada por Platão, Plotino e Proclo; as concepções caldeias e herméticas que fizeram da Luz o princípio da revelação e da emanação do Espírito no mundo; as teses místicas do Pseudo-Dionísio, o Areopagita; e os comentários medievais sobre o Gênesis, como o De luce de Robert Grosseteste (século XIII), que via a luz como a forma primordial e geradora do mundo.
    • O universalismo renascentista e a revelação central
      • Apresenta-se o Quid sit lumen como um belo exemplo do universalismo renascentista, no qual cada teoria encontra o seu lugar num edifício onde tudo é implantado, reunido e manipulado.
      • Descreve-se o seu método como uma pesquisa dialética da essência, que atinge, por graus sucessivos de inteligibilidade, a descrição do próprio universo.
      • Revela-se a tese central do opúsculo: a luz proveniente do Sol omnituens (Sol que tudo vê) é comum a tudo e a todos, e porta em si a "imagem completa e ordenada do mundo".
    • A luz como objeto da filosofia e o seu lugar na história das ideias
      • Postula-se que a luz é o único verdadeiro objeto do olhar e, citando Filão de Alexandria, que a filosofia se teria constituído precisamente para a poder apreender e pensar.
      • Situa-se o opúsculo no contexto das especulações óticas do Quattrocento, notando o seu distanciamento voluntário das formulações científicas.
      • Conecta-se a sua meditação ao desenvolvimento posterior das teorias da luz, desde Newton e Berkeley até Goethe e os teóricos da Bauhaus.
      • Conclui-se que a meditação sobre a natureza e a génese do mundo visível se realiza através de um "dispositivo circular de metáforas e conceitos" que surgem e retornam a uma "passeio contemplativo".