FICIN, Marsile; FARNDELL, Arthur. Gardens of philosophy: Ficino on Plato. London: Shepheard-Walwyn, 2006
Resumo
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Sumário do Fedão
- A vida de Cristo é o modelo ideal de toda virtude, conforme confirmado pelo nosso livro sobre religião.
- A vida de Sócrates constitui uma imagem, ou pelo menos um reflexo, da vida cristã, demonstrando que o Antigo Testamento se confirma através de Platão e o Novo Testamento através de Sócrates.
- Para quem duvidar da validade desta comparação, deve-se ler Xenofonte e Platão, com especial atenção para os diálogos Górgias, Apologia, Críton e Fedão.
- Sócrates omite no Fedão o argumento da alma como princípio do movimento, presente no Fedro, porque este princípio é comum às nossas almas, às almas celestes e às demoníacas, sendo que o Fedão considera os princípios que mais especificamente nos dizem respeito.
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O Arranjo do Diálogo e os Últimos Momentos de Sócrates
- A primeira nota é a maneira admirável como Sócrates consola os seus amigos, que o foram visitar na prisão no dia em que deveria beber o veneno.
- A segunda nota é a devoção escrupulosa com que ele atende às premonições dos seus sonhos, como se fossem oráculos, e o cuidado total para que nenhum pormenor dos preceitos divinos seja negligenciado.
- A terceira nota para reter na memória é a de que os homens estão sob a proteção cuidadosa de Deus e não têm o direito de a abandonar, a menos que Deus o queira.
- A quarta nota é o seu desejo mais profundo, expresso quando diz que espera, na sua partida, ir para junto de homens bons e de outros deuses bons, colocando maior ênfase na ida para junto de deuses bons.
- A referência a "outros deuses" e "deuses muito bons" compreende-se como as mentes angélicas, superiores às esferas, na companhia das quais Sócrates espera que as nossas almas um dia sejam admitidas, embora não o afirme categoricamente devido à opinião de outros sábios.
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A Filosofia como Desprendimento do Corpo e a Purificação da Alma
- Sócrates, no papel de filósofo, declara: "Visto que todo o estudo de um filósofo não é senão o desprendimento do corpo, e visto que ele se aproxima da perfeição a cada dia por este desprendimento, certamente não deve temer o desprendimento do corpo que ocorre na morte, mas deve aguardá-lo com suprema esperança e alegria".
- O filósofo desprende a alma do corpo de duas formas: através da purificação do treino moral, que a liberta da agitação, e através da prática da contemplação, que a liberta dos sentidos e do poder da imaginação.
- Tal como os médicos sábios usam uma dupla purga, primeiro por amolecimento e depois por desprendimento, também na filosofia a purificação moral vem primeiro, como o amolecimento, seguida pela purificação do autoexame, sendo perigoso aplicar a segunda antes da primeira.
- Conclui-se daqui que o filósofo desvia a sua atenção das coisas físicas na medida em que a dedica aos princípios e Ideias não físicos.
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Os Males do Corpo, a Busca da Verdade e a Natureza da Virtude
- Depois de enumerar as coisas inadequadas que o corpo importa para a alma, Sócrates acrescenta que o pior e maior mal é a ilusão (phantasia) pela qual a imaginação distrai a mente que se eleva para o não físico e a desvia para imagens do físico.
- Porque a alma, ligada ao corpo, não pode perseguir a verdade que naturalmente busca, infere-se a disjunção: "Ou a verdade nunca é perseguida, ou é perseguida após a morte", sendo a primeira opção inaceitável.
- Sócrates censura os que pensam que a temperança é abster-se dos desejos mais fracos do corpo para cumprir os mais fortes, e os que definem a coragem como superar certos medos por causa daqueles medos que já nos dominaram.
- Toda a função da virtude moral é usada para purificar a alma em função da sabedoria, pois, caso contrário, não haveria virtude.
- A sabedoria humana é também uma espécie de purificação, pela qual, através da meditação, nada se persegue senão uma pureza que é seguida pela iluminação divina, sendo que o que nos une a Deus não é um estado adquirido pelos nossos labores, mas a própria purificação.
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Argumentos para a Imortalidade: Movimento Cíclico e Ressurreição
- Sócrates propõe provar a imortalidade da alma com base no seu movimento de avanço e recuo de um oposto para outro, afirmando que, assim como os mortos procedem dos vivos, também um dia os vivos ressurgem dos mortos, parecendo prenunciar a ressurreição dos mortos, que também reconhece no Político.
- Indica-se que, tal como a substância do céu e a matéria dos elementos alternam incessantemente entre disposições, também a alma racional – que é a origem do movimento, da vida e da geração – tem o poder de alternar eternamente entre unir-se ao corpo e dele se separar.
- Por fim, Sócrates afirma com ilimitada confiança a ressurreição que antes insinuara.
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O Princípio da Relembração (Anamnesis) e a Existência das Ideias
- Sócrates trata do princípio da relembrança, de origem pitagórica, que prova que a alma vive antes do corpo, afirmando: "Se a aprendizagem é relembrar, então as almas viveram antes do corpo".
- Que a aprendizagem é relembrar prova-o de duas formas: primeiro, porque respondemos a perguntas sobre coisas nunca aprendidas; segundo, porque da percepção de coisas sensíveis ascendemos, por abstração, à consciência das Ideias, como ao reconhecer coisas iguais ascendemos à apreciação da Igualdade em si.
- Demonstra a existência das Ideias de duas formas: primeiro, porque um objeto dito igual pode tornar-se e parecer desigual, mas a Igualdade em si nunca pode tornar-se ou parecer Desigualdade; segundo, porque as coisas iguais, sendo imperfeitas, participam da desigualdade, mas a Igualdade em si de modo algum o faz.
- É crucial observar como Sócrates afirma vigorosamente as Ideias e como acrescenta que a sua essência nos pertence, demonstrando a alma estar eternamente unida a essa essência.
- Nada é mais importante do que afastar o medo da morte, como se de uma doença grave se tratasse, através da prova da imortalidade.
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A Relação entre o Intelecto e o Inteligível e a Natureza Indissolúvel da Alma
- Platão aborda a relação do intelecto com o inteligível, que chama de Ideia incorpórea e eterna, concluindo que o intelecto, estando em harmonia com ela, é também incorpóreo e eterno.
- Confirma-se esta relação pelo facto de a mente, quando impedida, refugiar-se na Ideia, desfrutando da sua companhia e sendo por ela tornada íntegra.
- Após dizer que a alma é absolutamente indissolúvel, Sócrates acrescenta "ou está próxima de algo absolutamente indissolúvel", o que se compreende pelo Timeu, onde só Deus é absolutamente indissolúvel, sendo as almas, por comparação, de algum modo dissolúveis, mas nunca serão dissolvidas.
- A alma pura segue após a morte para reinos puros e eternos, enquanto a alma impura, infectada pelas coisas da terra, é puxada de volta para elas, carregando consigo um véu visível, feito de ar ou de espíritos e vapores do seu próprio corpo, conforme diz Proclus.
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A Purificação Final e o Destino das Almas após a Morte
- A descrição das almas que entram em feras é pitagórica e deve entender-se não como a alma animar corpos de bestas, mas como se combinar, para purificação, com a imaginação dos brutos através da sua própria imaginação bruta, uma explicação dada pela maioria dos seguidores de Platão, exceto Plotino.
- Platão conclui que só são recebidos em Deus os que na morte foram purificados pelo poder da verdadeira filosofia, pois, fora do vínculo da alma com o corpo, nada há senão o amor, que por sua natureza provê.
- A alma que se deleita e alimenta de coisas físicas torna-se física, caindo após a morte no reino do físico, enquanto a alma restaurada à sua pureza não duvida da sua imortalidade.
- A história do cisne é uma alegoria pitagórica, onde o cisne, uma criatura solar, representa Sócrates, que aprovado pelo oráculo de Febo, curava as mentes dos homens, mostrando que os filósofos não devem temer a morte.
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A Investigação sobre a Alma e a Refutação de Opiniões Vulgares
- É sumamente difícil nesta vida entender a substância da alma, sendo o caminho mais seguro o da purificação moral e da abstração metafísica, ou, quando isto é inadequado, alguma palavra divina ou revelações e milagres.
- Platão transmite dois preceitos: primeiro, não se deve acreditar em princípios sem uma ponderação demorada, mas, uma vez confiando neles, não se deve abandoná-los facilmente; segundo, na discussão, deve-se considerar apenas o princípio que está de acordo com a verdade.
- Sócrates responde às questões sobre a alma argumentando que, se a aprendizagem é relembrar, a alma existiu antes do corpo e não pode ser uma harmonia física, pois a harmonia é subsequente às suas partes e é por elas conduzida, ao passo que a alma se lhes opõe.
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As Causas Divinas e a Prova da Imortalidade pela Relação com as Ideias
- Platão condena aqueles que atribuem as causas das coisas a materiais e instrumentos, afirmando que os fenômenos naturais dependem inteiramente de causas divinas: a eficiente, a final e a ideal.
- Escolhe primeiro a causa final, o bem de cada coisa e do todo, cujo poder é a causa eficiente, e depois os princípios ideais da inteligência divina, os modelos segundo os quais todas as coisas se manifestam.
- Confirma aqui o mistério mosaico: "Deus viu que todas as coisas eram boas; sim, que eram muito boas", relacionando todas as coisas com o próprio Bem.
- A verdade das coisas não pode ser conhecida sem se recorrer às Ideias, cujos modelos estão nas nossas mentes, sendo a causa indubitável das coisas e a prova mais forte da imortalidade da alma.
- O movimento para a frente entre as Ideias vai do menos geral para o mais geral, e o movimento descendente vai das Ideias para os seus efeitos.
- A imortalidade baseia-se no facto de a alma racional impartir vida ao corpo não como uma forma acidental, mas como uma forma substancial, uma Ideia de vida física, concluindo-se que a alma não pode sofrer a morte, pois tem a sua própria vida e permanece em si mesma.
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A Escatologia: Julgamento, Purificação e Recompensas na Vida Futura
- Sendo a alma imortal, Sócrates incentiva todos a empreender um treino moral e reflexivo, para que a alma, purificada, voe de volta à sua pátria celeste, confirmando que a virtude não causa dano e o vício não traz benefício, o que só se cumpre se a alma for imortal.
- A alma leva consigo as suas tendências adquiridas, os hábitos bons e maus, para infligir dano imediato ou conceder benefício imediato, sendo que um espírito guardião leva todos os homens ao Juiz divino, onde são julgados e conduzidos para o céu, para o Tártaro ou para as regiões intermédias.
- Antes de distribuir os lotes das outras almas, descreve a terra, com partes tão elevadas e extensas que não são fustigadas por vento ou tempestade, onde nascem homens longevos de sentido aguçado, numa descrição semelhante ao paraíso terrestre de Moisés.
- Divide a forma da terra elevada em doze regiões, de acordo com os doze signos do Zodíaco, governadas pelas almas das doze esferas, com a forma dodecaédrica que Timeu atribui ao mundo.
- Descreve os rios subterrâneos: o Aqueronte, lugar de purificação ligado aos cuidados e tristezas; o Flegetonte, que castiga a ira e a luxúria ardentes; o Estige e o Cocito, que castigam o ódio com luto e choro; e o Tártaro, o lugar do inferno, de onde os mais perdidos nunca emergem.
- O que se diz dos rios aplica-se sobretudo aos demônios e espíritos que punem os maus, sendo os pecados purgados de acordo com a sua gravidade: no Aqueronte, os de primeiro tipo; no Flegetonte, Estige ou Cocito, os de segundo tipo; e no Tártaro, os de terceiro tipo, incuráveis.
- As almas que viveram vidas justas e santas sem filosofia ascendem às regiões elevadas da terra; as que viveram vidas refinadas e filosóficas habitam no céu; e as que foram perfeitamente purificadas pela filosofia sobem ao reino supercelestial, onde habitam sem quaisquer corpos.
- Porfírio e Jâmblico ensinam que as almas totalmente restauradas a Deus nunca caem, e as em condição oposta nunca emergem do Tártaro, sendo as revoluções do tempo empregues para alguma purificação.
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O Último Acto de Sócrates: Um Sacrifício de Gratidão
- Por fim, Sócrates declara que deve um galo sagrado a Esculápio, pedindo que lho paguem pontualmente, pois os antigos sacrificavam um galo, o arauto do dia e do sol, a Esculápio, o médico filho de Apolo, declarando assim que deviam a luz do dia – a luz da vida – à beneficência divina que cura todos os males.
- Tal como antes desejara encontrar um médico que curasse os males da alma, agora, completamente liberto da doença da dúvida e do medo, pede que se devolvam graças e um sacrifício a Deus, oferecendo a prece de regressar à sua pátria celeste cantando cânticos alegres de louvor.