O propósito deste livro é estudar alguns dos aspectos pelos quais a época atual se apresenta essencialmente como uma época de dissolução, abordando ao mesmo tempo o problema dos comportamentos e das formas de existência que em uma situação semelhante convêm a um tipo humano particular.
Essa restrição deve ser bem lembrada. Tudo o que será dito não diz respeito a um homem qualquer dos nossos dias. Em vez disso, tem-se em vista um homem que, mesmo estando envolvido no mundo de hoje, até mesmo onde a vida moderna é em máximo grau problemática e paroxística, não pertence interiormente a tal mundo nem tenciona ceder a ele, e em essência sente ser de uma raça diferente daquela da grandíssima parte dos nossos contemporâneos.
O lugar natural desse homem, a terra em que ele não seria um estrangeiro, é o mundo da Tradição. Tradição: essa expressão aqui é usada em um significado específico, por nós precisado em outras ocasiões, que diverge do comum enquanto se aproxima das categorias usadas por um René Guénon na análise da crise do mundo moderno. Segundo essa particular acepção do termo, uma civilização ou sociedade é «tradicional» quando é regida por princípios transcendentes, o que é apenas humano e individual, quando cada um dos seus domínios é formado e ordenado de cima e para o alto. Para além da variedade das formas históricas, existiu uma essencial identidade ou constância do mundo da Tradição. Dele em outra parte procurou-se precisar os valores e as categorias essenciais; estes constituem as bases para cada civilização, sociedade e ordenamento da existência, a ser dito normal em um sentido superior, e regido por um verdadeiro significado.
Tudo o que veio a predominar no mundo moderno representa a antítese precisa de cada tipo tradicional de civilização. E as circunstâncias estão a mostrar-nos de modo cada vez mais evidente que partindo dos valores da Tradição (mesmo que se admita que alguém ainda saiba reconhecê-los e assumi-los) é extremamente improvável que se possa provocar uma modificação de relevo no estado atual geral das coisas através de ações ou reações eficazes de um certo alcance. Depois dos últimos abalos mundiais, para tanto hoje parece faltar qualquer ponto de apoio seja nas nações que na esmagadora maioria dos indivíduos, seja nas instituições e nas condições gerais da sociedade que nas ideias, nos interesses e nas forças predominantes da época.
Contudo existem alguns homens que estão por assim dizer de pé entre as ruínas e entre a dissolução, os quais, mais ou menos conscientemente, é a esse outro mundo que pertencem. Um pequeno grupo parece disposto a lutar até mesmo em posições perdidas, e quando ele não verga, quando não desce a compromissos pela sedução exercida por tudo o que poderia condicionar algum seu sucesso, o seu testemunho é válido. Para outros, trata-se em vez disso de se isolar completamente, coisa que porém exige disposições internas e também condições materiais privilegiadas que a cada dia se tornam sempre mais raras. De qualquer modo, é a segunda das soluções possíveis. Acrescentam-se os pouquíssimos que no campo intelectual podem ainda afirmar os valores «tradicionais» fora de qualquer fim imediato, tanto para desenvolver uma «ação de presença», ação certamente útil para impedir que a realidade atual feche não só materialmente mas também idealmente qualquer horizonte e não deixe mais enxergar nenhuma medida diferente daquelas que lhe são próprias. Através deles, podem ser mantidas distâncias: outras dimensões possíveis, outros significados da vida, indicados a quem seja capaz de se desviar, de não olhar apenas para as coisas presentes e próximas.
Isso não resolve porém o problema prático pessoal, quando não se trata daqueles a quem é dado isolar-se materialmente, mas de homens que não possam ou não queiram cortar os laços com a vida atual, que portanto se encontram diante do problema da atitude a tomar na existência, já em ordem ao que se refere às reações e às relações humanas mais elementares.
Ora, este é precisamente o tipo particular de homem que se tem em vista no presente livro. Para ele vale o dito de um grande percursor: «O deserto cresce. Ai daquele que esconde em si o deserto!». De fato, externamente ele não encontra mais nenhum apoio. Os ordenamentos e as instituições que em uma civilização e sociedade tradicionais lhe teriam permitido realizar-se integralmente, organizar de modo claro e unívoco a própria existência, defender e aplicar no próprio ambiente de modo criativo os valores principais por ele interiormente reconhecidos, são inexistentes. Assim não é o caso de continuar a propor a este linhas de ação que, adequadas e normativas em cada civilização normal, tradicional, não saberiam mais sê-lo em uma civilização anormal, em um ambiente social, psíquico, intelectual e material do todo diferente, em um clima de geral dissolução, no regime de formas de uma desordem mal refreada e, de qualquer modo, privadas de qualquer superior legitimidade. Daqui, os problemas específicos que se tenciona tratar nesta sede.
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