Já foi afirmado que a penetração ativa na noite escura só se pode realizar porque Deus, com sua graça preveniente, auxilia, atrai e apoia a alma no caminho. Mas nos principiantes essa graça ainda não tem o caráter de noite escura. Deus os trata como a mãe carinhosa cuida dos seus pequenos: carregando-os ao colo e alimentando-os com a doçura do leite, ou seja, Deus faz com que suas práticas espirituais — oração, meditação e mortificação — sejam acompanhadas de abundantes alegrias e consolações. Esse júbilo torna-se motivo de pronta entrega às práticas espirituais; eles não notam a imperfeição que há nisso, nem as numerosas faltas que cometem na prática das virtudes. O santo prova com exemplos concretos que, nos principiantes, transferem-se para a ordem espiritual os sete pecados capitais: a soberba espiritual, porque se gabam de suas graças e virtudes, olhando com desdém para os demais, e preferindo aconselhar os outros a ouvir conselhos; a avareza espiritual — nunca lhes parece demasiado o que possuem de livros, crucifixos, rosários etc. (Idem, ibidem, c. 2) A fim de se desacostumarem, é preciso que sejam privados do leite das consolações e alimentados com substância mais sólida. "Já se havendo exercitado por algum tempo no caminho da virtude, perseverando na meditação e na oração, nas quais com o gosto e o deleite que aí encontraram, desapegaram-se das coisas do mundo e adquiriram algumas forças espirituais em Deus (com as quais ficaram um tanto refreados os desejos das criaturas e já poderão sofrer em Deus um pouco de peso e aridez sem voltar atrás ao melhor tempo, quando se achavam mais à vontade nesses exercícios espirituais)... é então que Deus lhes escurece toda essa luz e lhes fecha a porta, privando-lhes do manancial da doce água espiritual que andavam saboreando em Deus... todas as vezes e por todo o tempo que lhes apetecesse, deixando-os tão às escuras que não sabem para onde dirigir a faculdade da imaginação e o pensamento... (Idem, ibidem, c. 9, Ed. Cr., II, 26ss.) Todas as práticas de piedade lhe parecem agora insípidas e enfadonhas. E não se trata aqui da consequência de pecados e imperfeições, mas da aridez purificadora da noite escura, como veremos por três sinais:
1) a alma não sente prazer nas criaturas;
2) a alma se lembra continuamente de Deus, com solicitude e ansioso cuidado, pensando que não serve a ele, mas que volta atrás, por se ver sem gosto pelas coisas divinas". A alma não se preocuparia com seu estado, caso sua aridez fosse consequência de sua tibieza e indiferença. Na aridez purificadora, porém, predomina sempre o desejo de servir a Deus. O espírito se fortifica, enquanto os sentidos, por falta de prazer, sentem-se fracos e sem energia. "Deus transfere os bens e forças do sentido para o espírito e, como os sentidos e a força naturais não têm capacidade para isso, ficam jejunos, secos e vazios; porque a parte sensível não tem aptidão para o que é puro espírito. Assim, enquanto o espírito goza, a carne se entedia e enfraquece. Mas o espírito, que vai recebendo o alimento, torna-se forte, mais alerta e solícito que antes no cuidado de não falhar com Deus. . ."; (Idem, ibidem, c. 9, Ed. Cr., II, 29)
3) a impossibilidade para a alma, por mais esforços que empregue nisso, de meditar e discorrer com o entendimento e com a ajuda da imaginação, como costumava fazer anteriormente. Deus aqui começa a comunicar-se, não mais por meio dos sentidos, como o fazia até então, quando a alma o encontrava pelo trabalho do raciocínio, ligando ou dividindo os conhecimentos; agora ele o faz puramente no espírito, onde não é mais possível haver discursos sucessivos. A comunicação é feita com um ato simples de contemplação, a que não chegam os sentidos interiores e exteriores da parte inferior. Por isso a imaginação e a fantasia não podem então apoiar-se em consideração alguma. . . Esta contemplação, de certa forma escura e muito árida para a parte sensível do homem, é escondida e, mesmo para quem a recebe, misteriosa. . . (Idem, ibidem, Ed. Cr., II, 31) Via de regra, ela traz à alma inclinação e desejo de ficar a sós e em quietude, sem que pudesse ou quisesse pensar em algo determinado. (Idem, ibidem, Ed. Cr., n, 30) Nesse descuido e repouso, sentiria logo, e delicadamente, aquela nutrição interior; esta não delicada que não é notada. . . é como o ar que, ao fecharmos a mão, se esvai. . . nesse estado, Deus trata a alma de tal maneira e a leva por um caminho tão diferente que, se ela quiser operar com suas faculdades, antes dificulta que ajuda a obra que Deus nela está fazendo. . "A paz com que Deus deseja premiar a alma, como fruto e compensação da aridez da parte sensível, é espiritual e delicada e produz obra quieta, delicada, solitária, satisfatória e pacífica, muito alheia aos prazeres sensíveis e palpáveis anteriores..." (Idem, ibidem, Ed. Cr., n, 31) Assim se dá a entender que a morte do homem carnal verifica-se antes do alvorecer da vida nova, a qual é trazida por essa morte.