B. Dubant e M. Marguerie. Castañeda. La voie du guerrier. Paris: Trénadiel, 1981
Estamos, então, na presença de uma "purificação" radical do homem. "Buscar alcançar a perfeição do guerreiro é a única tarefa digna da nossa idade de homem." Não se resolver a isso, diz Dom Juan, é na verdade buscar a morte, o que equivale a não buscar nada, já que a morte nos leva de qualquer modo. O homem que crê ter todo o seu "tempo", toda a "eternidade" — pouco importa que ele não o creia racionalmente, se ele age em consequência — esgota rapidamente o seu poder pelas solicitações dos outros. Para ele, o mundo é a descrição que o ensinaram. Ele modela a sua imagem segundo arquétipos dos quais ele não é senão o servo. Ele perde forçosamente os seus próprios combates, e os combates que ele ganha são os dos outros. O guerreiro não é mais o reflexo de nada. Ele deve ser tão misterioso quanto o universo que o rodeia, já que as definições dadas não são senão o retrato de um mundo artificial. Abrindo-se ao poder do qual ele não pode saber nada — e nós veremos na segunda parte que ele só se abre ao poder quando ele busca não saber nada dele — ele não deve em nada limitar a intrusão destas forças misteriosas nele; é por isso que ele deve ser o mais forte e o menos disponível possível, para afrontar estas forças assustadoras sem morrer. A fraqueza não é na verdade senão a disponibilidade aos outros; a força é disponibilidade ao poder, então indisponibilidade à descrição do mundo incutida.
A razão nos diz que o universo é cognoscível; que ele é na realidade independente da nossa percepção, provido de existência em si, e que a nossa percepção nele é mais ou menos adequada: se ela não é senão aproximativa, a razão, no seu esforço perseverante, reduzirá esta margem. Mesmo os "sistemas idealistas" não o negam quase.
O homem que não é o escravo da sua razão tem bem consciência do contrário: o universo é para sempre incognoscível, totalmente misterioso, e isso não é assunto de razão, mas de "Sentimento".
Carlos Castaneda se queixa a Dom Juan de nunca ter podido ser um artista, e Dom Juan lhe responde: "É porque tu nunca tomaste a responsabilidade de viver num universo incomensurável."
A "arte" verdadeira pertence de fato ao "sentimento" (não à sentimentalidade) e é por isso que os artistas autênticos estão mais próximos do "guerreiro" que os outros homens comuns. Não existe arte que não seja "emocional" (e não veleidosa) e esta emoção dá conta de um "mistério", sejam quais forem os nomes de que o vestem. O mistério é sempre inteiro e ele se mantém, magnífico "para além de toda expressão", assustador, atrás da película confortável mas quão asservidora da representação racional social. As forças, as vibrações, as ondas, são apreendidas de outro modo que as ideias, as quais não são senão invenção humana.
E isso deveria ser claro para todo o mundo já que ninguém, sejam quais forem as suas pretensões, sabe nada da sua própria morte.