Études Traditionnelles Ano 41 N. 200 (1936)
- O Deus Céltico e a Escrita Oghâmica
- Os Celtas adoravam um Deus único, cujo símbolo era o Sol, o mesmo que os Gregos chamavam o deus dos Hiperbóreos, Apolo Karneios.
- O Sol possui uma dupla influência, benéfica e maléfica, sendo que, ao lado de Apolo Karneios, existe Saturno Kronos, que acabou por suplantar o primeiro.
- Este deus é o Sol invisível para o mundo visível, mas é o que ilumina o mundo dos Mortos e dos Ancestrais, e se manifesta no mundo como Grannus e Belenus.
- Grannus deriva do gaélico Grian (Sol), e Belenus deriva de Bel, nome primitivo da Lua.
- O Sol do mundo dos Ancestrais é o Pai da Raça, o Ancestral dos ancestrais, de quem os Celtas e os Gauleses se diziam descendentes (o Dis-pater de César, que vem do gaélico divith, depois dith, que significa morte).
- Este deus era adorado em Ogígia, e os habitantes dessa ilha se consideravam todos sacerdotes de Apolo, prestando-lhe culto contínuo, cantando hinos e cânticos, e sendo a cidade governada por reis hereditários chamados Boréates, descendentes de Borée.
- O deus tinha um olho único no meio da testa, e seu olhar reduzia a cinzas quem o visse.
- Os altos lugares eram especialmente consagrados a Apolo Karneios, sendo o Cairn céltico o monte sagrado e solar.
- Esta é a origem do Carnac armórico, que é uma "cidade solar" consagrada ao sol culminante (ao meio-dia) no solstício de verão.
- O deus único possuía três nomes designando três qualidades ou aspectos diferentes, que posteriormente se tornaram três deuses: Bress, Balar e Tethra na Irlanda, e Esus, Teutatès e Taranis entre os Gauleses, sendo Taranis derivado de Taran (trovão), e Teutatès de Teut Tad (o pai do povo, da raça).
- O deus supremo sob seu triplo aspecto era "tripla potência" (KRN), sendo representado no hieroglifismo fonético por três chifres, três cabeças (trikarenos) ou três grous (trigaranus), e o javali (símbolo da raça céltica) com três chifres.
- Posteriormente, o deus foi representado por um homem portando um martelo ou uma machadinha e apoiado em uma árvore: se o homem era um velho barbudo, a árvore era um teixo (eternamente verde), e o deus era o Ancestral dos ancestrais; se o homem era um adolescente imberbe, a árvore era um carvalho, e o deus representado era o Filho (Mercúrio).
- Mercúrio era, segundo César, a grande divindade dos Gauleses, sendo seus "simulacros" (como demonstrou Salomon Reinach) as pedras levantadas, um dos mais antigos símbolos de Hermes.
- O Mercúrio céltico tinha um duplo aspecto, benéfico (civilizador, curador) e maléfico (guerreiro destrutor), e é conhecido por nomes como Borvo (deus das fontes termais), Lugaid ou Lug ("príncipe das artes múltiplas"), e Woden ou Odin (o civilizador que leva a tradição).
- Em Gaélico, o Mercúrio céltico é Ogme (deus da palavra), o inventor das letras e da escrita sagrada, oghâmica.
- A escrita oghâmica era composta primitivamente por dez consoantes representadas por grupos de pontos e traços (de um a cinco), sendo o alfabeto final de 20 letras (além dos números 3, 7 e 12, os números 5, 10, 20, 50, 150, 350 e 400 eram sagrados para os Celtas).
- Os nomes destas letras são todos nomes de árvores, pois para os Celtas, as árvores simbolizavam a ciência sagrada, sendo que no dialeto galês a palavra gwydd significa "árvore" e "ciência" ou "literatura".
- Grasset d'Orcet sugere que este alfabeto se conservou na Idade Média como linguagem secreta, sendo aparente em vários outros alfabetos, e era utilizado no monumento de Kergaval, sendo formado por ideogramas com caráter aritmético.
- O alfabeto oghâmico tem afinidade com escritas mais antigas, como a que precedeu a ocupação de Ílion (Ilion) pelos Troianos, e se continuou na cerâmica de Rodes, Chipre, Corinto e Itália, tendo servido para formar o cuneiforme.
- Este alfabeto composto de pontos ou traços paralelos não ligados se conservou até nos Tuaregues sob o nome de Klemtifinag e foi retomado no alfabeto Morse.
- O alfabeto oghâmico irlandês primitivo (de 20 letras, estudado por Arbois de Jubainville) não possui a letra P, que os Irlandeses haviam perdido, sendo esta letra posteriormente reintegrada por São Patrício, elevando o alfabeto a 21 letras.
- A ausência da letra P neste alfabeto, e seu posterior reencontro, pode conter alguma conclusão simbólica a ser extraída.