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id da página: 7328 Henry Corbin – Corpo Espiritual e Terra Celeste – Prólogo Henry Corbin

Corbin CSTC Prologo


CORBIN, Henry. Corps spirituel et terre céleste: de l’Iran mazdéen à l’Iran shî’ite. Paris: Buchet Chastel, 2005

  • O "Oitavo Clima" como continente perdido para o Ocidente

    • A possibilidade de o mundo designado como "oitavo clima" representar o "continente perdido" para os ocidentais.
    • A sugestão de que os Espirituais, para quem este livro atua como intérprete, podem servir de guias para aqueles que buscam esse continente.
  • A dificuldade de intercomunicação entre universos simbólicos na contemporaneidade

    • A aparente contradição entre a diminuição das distâncias espaciais e a aceleração da História com a dificuldade de estabelecer intercomunicação.
    • A existência de universos reais e irredutíveis, pelos quais os homens vivem e morrem, cuja realidade secreta é anterior e predetermina todos os projetos humanos.
    • A identificação da causa primordial dessa impenetrabilidade na perda da consciência do intermundo, designado como "mundo de Hūrqalyā", "oitavo clima" ou ‘ālam al-miṯāl.
    • A definição do termo ‘ālam al-miṯāl como mundus imaginalis ou "mundo imaginal", distinguindo-o claramente do "imaginário".
  • A incompreensão ocidental da espiritualidade islâmica e iraniana

    • A questão sobre a ideia que o homem culto de hoje possui da espiritualidade islâmica e do mundo espiritual do Irã.
    • A crítica à abordagem que se centra em considerações políticas ou sociológicas, perdendo o essencial.
    • O problema de formular perguntas sem considerar se fazem sentido para o interlocutor islâmico, invalidando as respostas.
  • A aventura de ser hóspede de uma cultura e a necessidade de ir além da superfície

    • A definição de ser hóspede de uma cultura, comunicando-se em sua língua e assumindo seus problemas, como uma aventura enorme e temível.
    • A afirmação de que quem permanece na superfície nunca descobrirá os segredos do alto-mar do conhecimento espiritual.
  • O obstáculo da perda da linguagem simbólica para a compreensão espiritual

    • A dificuldade de compreender o que significa ler o Alcorão como uma Bíblia, percebendo seu sentido espiritual como fazem os sufis e os Espirituais do Islã.
    • A impossibilidade de acompanhar esses Espirituais se se perdeu a linguagem dos símbolos e se é cego ao sentido espiritual dos textos antigos.
    • A crítica à obstinação em confrontar textos espirituais apenas com documentos históricos ou arqueológicos.
  • Sintomas da perda do continente espiritual: o falso dilema teológico e o agnosticismo

    • A citação da oposição entre "imortalidade da alma" e "ressurreição dos mortos" como um sintoma da perda do continente espiritual.
    • A caracterização desse debate como um falso triunfo dos teólogos "realistas" sobre os filósofos "platônicos impenitentes".
    • A referência ao "agnosticismo piedoso" que paralisa mentes magníficas e inspira terror perante a gnosis.
  • A superação do dilema imortalidade/ressurreição nos autores estudados

    • A constatação de que o dilema é alheio ao pensamento dos autores reunidos neste livro.
    • A afirmação de que não se trata de "demonstrar" a imortalidade ou a ressurreição, especialmente a quem as nega.
    • A razão fundamental para o fracasso da demonstração racional: a esperança ou a rejeição não são objeto de prova teórica, mas de um juízo pessoal pelo qual se assume a responsabilidade de si mesmo.
  • A conexão central entre a ressurreição de almas e a ressurreição de corpos

    • A inoperância de impor a imortalidade ou a ressurreição a quem não a deseja.
    • A impossibilidade de "ressurreição de corpos" sem "ressurreição de almas", o que implica superar o perigo da "segunda morte".
    • A referência ao tratamento da "segunda morte" no hermetismo antigo e a necessidade do "descenso aos infernos".
    • A definição da caro spiritualis como sendo ao mesmo tempo suprassensível e perfeitamente concreta, constituída pela própria alma, pela "Terra celeste da alma".
    • A impossibilidade de uma "alma morta" ser a substância da caro spiritualis.
    • A identificação desta conexão como o pensamento central dos textos e autores estudados.
  • A progressão do universo espiritual iraniano do Mazdeísmo ao Islã

    • A descrição do conjunto dos textos como uma progressão de uma oitava a outra do universo espiritual iraniano, retomando e ampliando o mesmo tema.
    • A dificuldade da tarefa, dada a escassez de obras que apresentem a unidade desse conjunto.
    • A necessidade de esboçar primeiro uma fenomenologia da consciência Mazdeísta, nomeadamente da sua angelologia e Figuras arquetípicas.
    • A abertura do caminho, através do tema estudado, que conduz do Irã Mazdeísta ao Irã Islâmico.
  • O objetivo de demonstrar a colaboração através de uma terminologia comum

    • A intenção de, na segunda parte do livro, ceder a palavra a autores cujos nomes e obras foram quase ignorados no Ocidente.
    • O objetivo de demonstrar como se pode estabelecer uma colaboração perante certos problemas e uma terminologia comum.
    • A afirmação de que sem tal colaboração não se podem alimentar grandes esperanças, mesmo com diálogos bem-intencionados.
    • A apresentação de traduções do persa e do árabe de onze autores, cobrindo um período do século XII até aos dias de hoje.
    • A questão sobre o que será do conhecimento do Homo sapiens enquanto se ignorarem os mundos invisíveis e os seus exploradores.
  • O duplo desafio da difusão e da elaboração na filosofia orientalista

    • A constatação de que, idealmente, a obra de "difusão" deveria seguir o trabalho de elaboração.
    • A realidade da escassez de publicações, obrigando o filósofo orientalista a ocupar-se de ambas as tarefas.
    • A impossibilidade de realizar tal investigação sem um comentário detalhado (as "notas"), que evita deixar o edifício suspenso no vazio.
    • A intenção de fazer um livro acessível tanto ao investigador, que encontrará temas para aprofundar, como ao "homem comum", merecedor de respeito.
  • Esclarecimento terminológico: teosofia, esoterismo, iniciação e Imam

    • A previsão de irritação com certos termos e a partilha dessa irritação.
    • A defesa do uso dos termos com a autêntica simplicidade dos textos originais.
    • A definição de "teosofia" como tradução do árabe ḥikma ilāhiyya e do persa jūdā-dānī, equivalentes exatos do grego theosophia.
    • A explicação de que "esoterismo" e "iniciação" não implicam um monopólio magisterial, mas referem-se respectivamente a coisas ocultas e ao nascimento espiritual que ilumina a percepção.
    • A advertência sobre o abuso destes termos e a promessa de que os contextos restituirão o seu uso verdadeiro.
    • A definição da palavra Imam como "Guia espiritual", termo central para o xiismo (imamismo) e para o Irã xiita.
    • A correção da grafia incorreta "iman", que significa "fé", e o desejo de que o xiismo deixe de ser uma Terra incognita.
  • O xiismo como conceito religioso que transcende a etnia e a raça

    • A refutação da identificação do conceito de Islã com um conceito étnico ou com a história de uma raça.
    • A afirmação do Islã como um conceito primordialmente religioso.
    • A referência ao conhecimento que o iraniano tem da sua epopeia nacional pré-islâmica, mas o reconhecimento do tributo supremo à imamologia xiita ao Profeta árabe e à sua Casa.
    • A caracterização do xiismo não como uma questão de raça ou nação, mas de uma visão religiosa.
  • A transformação do diálogo Cristianismo-Islã pelo Islam espiritual

    • A menção à necessidade de insistir na conceção iraniana da relação entre xiismo e sufismo, aqui renunciada.
    • A afirmação de que as condições do diálogo Cristianismo-Islã mudam completamente se o interlocutor for o Islã espiritual (sufismo ou gnose xiita) e não o Islã "legalista".
    • O interesse das páginas dos autores xiitas sobre o Imam e a imamologia para recordar aos cristãos a cristologia mais primitiva, anterior aos Concílios.
  • Dificuldades de aproximação: a distinção terminológica entre muslim e mu'min

    • O reconhecimento das dificuldades de aproximação.
    • A distinção, para um xiita, entre muslim (aquele que professa a fé islâmica) e mu'min (o verdadeiro fiel, seguidor dos santos Imames).
    • A dificuldade para um xiita compreender a terminologia religiosa ocidental, como as "dificuldades para crer", de sentido confessional.
    • A atribuição dessas "dificuldades" a uma certa conceção da filosofia e da teologia, e a uma oposição não percebida num meio que usa termos como ‘ārif e ‘irfān ("teósofo místico" e "gnose mística").
  • A ausência de um termo corrente para o conhecimento espiritual no Ocidente

    • A constatação de que os equivalentes técnicos não captam o matiz familiar das palavras ‘ārif e ‘irfān.
    • A sugestão de que a ausência de um termo corrente no Ocidente manifesta que esse conhecimento não é algo comum.
    • A justificação do uso do termo "esoterismo" pela constatação de que as polémicas entre crentes e não crentes no Ocidente ocorreram num nível de conhecimento que nenhum dos lados logrou transcender.
  • O dilema dos milagres e a irrupção do mundus imaginalis

    • O exemplo das polémicas sobre os milagres do Novo Testamento, centradas na admissão ou rejeição da "rutura das leis naturais".
    • A identificação do dilema como sendo entre fé e falta de fé: história ou mito.
    • A necessidade de admitir que o milagre supremo é a irrupção de outro mundo no nosso conhecimento, que rompe as nossas categorias.
    • A clarificação de que esse "outro mundo" só pode ser percebido através de um órgão de conhecimento específico, o da perceção "hūrqalyāna".
  • O mundo de Hūrqalyā como o lugar dos acontecimentos espirituais reais

    • A apresentação do "mundo de Hūrqalyā" como aquele que é pensado ao longo dos séculos como a "Terra das visões".
    • A definição desse mundo como a Terra que oferece a sua verdade às aperceções visionárias e onde se realiza a ressurreição.
    • A caracterização desse mundo como o lugar onde "têm lugar" os acontecimentos espirituais reais, de uma realidade que transcende a materialização histórica.
  • As características do mundo imaginal: exterioridade não física e tempo qualitativo

    • A descrição do mundo imaginal como um mundo "externo" que não é o mundo físico.
    • A possibilidade de sair do espaço sensível sem sair da sua extensão, e a necessidade de sair do tempo homogéneo da cronologia para entrar no tempo qualitativo, a história da alma.
    • A identificação desse mundo como o lugar onde se percebe o sentido espiritual dos textos e dos seres, a sua dimensão suprassensível, distinta da alegoria.
  • Hūrqalyā como o lugar da corporificação espiritual (caro spiritualis)

    • A inacessibilidade de Hūrqalyā tanto às abstrações racionais como às materializações empíricas.
    • A definição de Hūrqalyā como o lugar da fusão do corpo e do espírito, onde o espípto toma corpo como caro spiritualis.
    • A perceção de Hūrqalyā não com os olhos de carne, mas com os sentidos do corpo espiritual ou sutil, os "sentidos do além" ou "sentidos hūrqalyāvī".
  • Irmandade espiritual com os Espirituais do protestantismo

    • A admissão de que as propostas dos autores podem ir contra as modas de pensamento da época.
    • A possibilidade de encontrar irmandade espiritual com Espirituais do protestantismo como Schwenckfeld, Boehme, o círculo de Berleburg, Oetinger, entre outros.
  • Objetivo do estudo: não uma história, mas uma progressio harmonica

    • A clarificação de que não se pretende apresentar a história de um tema, mas sim da Escola šaijī, merecedora de um estudo futuro.
    • O aviso de que abordar as coisas com a dimensão histórica habitual falseia as perspetivas, pois a perceção histórica linear é uma construção mental unidimensional.
    • A descrição da perspetiva histórica como redutora, operando num espaço e tempo homogéneos.
  • A perspetiva dos autores: níveis de projeção, tempo cíclico e isomorfismo

    • A apresentação das perspetivas dos autores como envolvendo vários níveis de projeção.
    • A conceção do tempo como cíclico, onde os seres e acontecimentos qualificam o seu próprio espaço e tempo.
    • A necessidade de ater-se às estruturas e homologias de estrutura, deduzindo a lei do seu isomorfismo.
    • A caracterização das discussões no plano do historicismo puro como irritantes e estéreis.
  • Exemplos de progressio harmonica: homologias entre Mazdeísmo e Xiismo

    • A exemplificação da progressio harmonica com homologias estruturais:
      • O Var de Yima (paraíso hiperbóreo) no Mazdeísmo e a Terra de Hūrqalyā no Sufismo e Xiismo.
      • A indicação de uma fisiología mística no Mazdeísmo e o seu desenvolvimento extraordinário no Šayjismo.
      • Os Anjos da Terra no Mazdeísmo e em Suhrawardī (Spenta Armaiti e Daēnā) e a pessoa de luz de Fátima na gnose xiita.
      • O Saoshyant ou Salvador futuro no Mazdeísmo e o Imam oculto no Xiismo.
    • A negação de identidade pura e simples entre os termos, afirmando antes uma analogia de relações e identidade de função no seio de conjuntos homologáveis.
  • A mudança de oitava como passagem a uma altura qualitativamente diferente

    • A metáfora musical: avançar de uma oitava a outra é diferente de passar de uma data histórica a outra; é passar a uma altura qualitativamente diferente.
    • A mudança de todos os elementos mantendo a forma da melodia, requerendo uma perceção harmónica para apreender um mundo pluridimensional.
  • A fenomenologia do espírito realizada em Hūrqalyā

    • A observação de um filósofo: "Logo, toda a fenomenologia do espírito se realiza em Hūrqalyā?".
    • A sugestão de que o passado, tal como é concebido, não estaria acabado e daria lugar a tantas discussões.
    • A proposta dos autores de que todos os atos de compreensão são reinícios, iterações de acontecimentos sempre inacabados.
    • A afirmação de que cada um é, volens nolens, autor de acontecimentos em Hūrqalyā, que podem abortar ou frutificar no seu paraíso ou inferno.
    • A ideia de que, ao contemplar o passado, se está a consumir o próprio futuro.
  • Hūrqalyā post mortem: o mundo dos imperativos e desejos

    • A demonstração pelos autores de que uma região de Hūrqalyā está povoada, post mortem, pelos nossos imperativos e desejos.
    • A definição desses imperativos e desejos como o sentido dos nossos atos e comportamentos.
  • A metafísica da recorrência incessante da Criação (taŷaddud)

    • A apresentação da metafísica subjacente como a de uma recorrência incessante da Criação.
    • A definição desta metafísica não no ens nem no esse, mas no Isto do ser no imperativo.
    • A conceção do acontecimento como a forma iterativa do ser que o promove à realidade.
    • A gravidade do acontecimento espiritual quando a consciência encontra o Doador dos seus dados.
  • A literalização dos símbolos no intermundo de Hūrqalyā

    • A descrição da Terra de Hūrqalyā como o lugar onde o Impossível se cumpre de facto.
    • A afirmação de que todas as construções mentais, imperativos, desejos e o amor seriam uma metáfora sem o intermundo de Hūrqalyā.
    • A definição de Hūrqalyā como o mundo onde os nossos símbolos se tomam à letra.