CONCEITO E OBJETO DA ONTOLOGIA (cont.)
COMO CONHECER O SER?
Em face dessa meditação, a primeira pergunta que se deve logo colocar a quem a realiza é: como podemos conhecer o Ser? As respostas a esta pergunta já as estudamos na "Gnoseologia".
Ora, o objeto da Ontologia é o Ser, mas o ser o temos em tudo quanto é, em tudo quanto não é nada. Portanto, o ser o encontramos em tudo, até no fenomênico. Neste caso, a Ontologia encontra bases para realizar suas investigações e essas bases não se afastam de todo o existir.
O ser se nos revela em nossas menores experiências. E os primeiros filósofos gregos o procuravam, na observação dó mundo material, buscando com sua simbólica, o que apontasse a arque, ser, principio de todas as coisas, cujos estudos já fizemos, quais do examinamos as filosofias do incondicionado, em "Filosofia e Cosmovisão". É um erro pensar que existisse aí apenas uma física e não uma metafísica. O não clarear-se do conceito de metafísica levou a muitos a ver nas especulações dos pré-socráticos apenas uma finalidade: a de compreender o mundo físico. E tal se dá por uma deficiente apreciação das estruturas esquemáticas da cultura grega e, sobretudo, da sua simbólica, não compreendendo que o helênico costumava apontar, com conceitos existenciais concretos, o que se refere ao ontológico. A deficiência de um vocabulário filosófico estruturado, levou-os, naturalmente, a usar termos das experiências existenciais-concretas para formular o que as ultrapassava: o mundo transfísico.
Uma análise cuidadosa da obra dos pré-socráticos, como ainda faremos, nos dará uma visão clara do pensamento genuinamente científico e genuinamente metafísico, que vem desde Hesíodo até Platão.
A visão hilozoísta dos gregos, a divinização do existir, como predicado do ser, impelia-os a buscar os referentes que a simbólica do acontecer apontava, e se ela não era suficiente para levá-los mais longe no estudo das leis do espírito, no entanto preparava o advento de Platão, Sócrates e finalmente Aristóteles, a quem, caberia a construção, em linhas sólidas, regulares e monumentais, da Ontologia.
Posteriormente, a Ontologia poderia procurar outras vias, como a captação de nosso ser na presença do ser. Mas é fazendo cooperar as verdades materiais, as lógicas, as formais e as ontológicas, que obteremos um critério capaz de nos guiar na apreciação dos temas ontológicos, que é uma cooperação dialética de vias para o estudo mais cuidadoso e seguro.
Se a Ontologia se coloca: a) na aceitação; como é comum, da identificação das leis do pensar e das leis do ser, como o afirmam os idealistas, que aceitam a identificação do ser com o pensamento (enquanto pensamento aceitamos, enquanto ato de pensar, distinguimos); ou b) pelo menos um parentesco entre essas duas ordens, ou seja, uma analogia, como o aceitam outros, como os realistas, etc., de qualquer forma, as reflexões, o método reflexivo, por seu processo sintético-analítico e analítico-sintético partindo tanto da expediência exterior como da interior, é o método indicado para tal estudo.
Mas a necessidade de distinguir-se o ato de pensar (que é psicológico, como já vimos em nossos livros anteriores) e o pensamento, que é o ser, a penetração no ser, no pensamento, como a captação deste, dependerão do funcionamento do ato de pensar. Há, assim, razão da parte das real-idealistas, quando afirmam que o mundo objetivo é modelado por nós. Neste caso, a nossa capacidade de assimilação, que depende dos nossos esquemas acomodados, nos dará uma captação condicionada do ser. Conhecemos e desconhecemos. Mas, pelo que conhecemos, podemos decadialeticamente construir o que desconhecemos. E se do que desconhecemos não nos é possível uma intuição de ordem puramente intelectual, há outras, fundadas no próprio operatório, mas sem dispensar a profundidade de nossa afetividade, que se podem conquistar, como a decadialética já nos mostrou.
Entretanto, ainda cabe dizer que não se pode, ou melhor ainda, não se deve encarcerar a Ontologia dentro de um método estabelecido a priori. A própria experiência filosófica, no seu processo, revelará sempre novos e bons caminhos (meth odes) segundo os progressos que conheça o pensamento humano.
Se aplicamos a decadialética, como método concrecional das positividades, não consideramos encerradas aí as possibilidades, pensamentais num terreno tão fértil, e tão grande como o do ser, que abarca tudo. Por tomar a decadialética uma atitude de suspicácia obstinada contra todo abstratismo, toda forma viciosa, afigura-se-nos o método mais eficiente, mas, por outro lado, sujeito a novas conquistas, que a postulação futura dos temas ontológicos poderá oferecer.
Fundada como deve estar na nossa experiência, e como essa abrange um campo eminentemente vasto, e como as possibilidades, neste sector, escapam a qualquer prévia delimitação, está sempre aberto o campo para novos caminhos e, nesta obra, teremos ainda oportunidade de examinar muitos oferecidos pela filosofia moderna, que exigem lhes concedamos nossa melhor atenção.