III. Mas devo agora indagar mais precisamente sobre a natureza do princípio interior e formativo do luteranismo: a justificação pela fé. Gostaria simplesmente de recordar que esse princípio não só representa uma heresia para a teologia, mas mesmo para a filosofia.
O quingentésimo aniversário do nascimento do Reformador deu origem a algumas manifestações estranhas, visando transformá-lo em uma espécie de Padre da Igreja. Alguns até o consideram o maior gênio do cristianismo, como aquele que mais brilhantemente ‘repensou’ a totalidade da religião cristã de acordo com sua verdade unificadora mais autêntica. A ‘revelação’ que Lutero teve sobre Cristo constitui, segundo eles, a descoberta (ou redescoberta) da ‘verdadeira fé cristã’. Os católicos só têm duas coisas a fazer: pedir perdão pela conduta indizível da Igreja cujos herdeiros, infelizmente!, eles são, livrando-se das ‘algemas confessionais’; e emprestar ouvidos finalmente a esse monge em quem ressoa a Palavra autêntica. Tais métodos, sem efeito sobre um teólogo competente, são todo-poderosos sobre católicos de boa vontade, e mesmo sobre numerosos sacerdotes inclinados a ignorar a importância do aprendizado doutrinal em nome da caridade. É por isso que tenho que especificar o que forma a base da teologia luterana, a saber, a justificação pela fé, para apreciar a solidez de seus fundamentos scripturísticos, e mostrar as consequências que dela decorrem.
Obviamente não estou pondo em questão nem a sinceridade nem a intensidade da fé de Lutero, nem subestimando o poder exemplar de suas convicções, pois é claro, ao contrário, que elas exercem uma espécie de fascinação imperiosa sobre muitos católicos: como se redescobrissem, no espetáculo do Reformador, o que crer sobre Cristo. Eles reagem a seus textos como se fossem a própria revelação: sentem-se agarrados e arrastados pela torrente de uma fé viva cuja própria possibilidade parecia ter se esgotado. Ao limpar e rasgar o emaranhado de regras e o sub-bosque de instituições dogmáticas, esse homem redescobriu a nascente jorrante. Que importa a linguagem excessiva ou o temperamento, ou mesmo as condenações doutrinárias, com respeito a esse breakthrough para a torrente de água corrente!
No entanto, não existe uma pura subjetividade vivida que não envolva um sistema de princípios especulativos (sejam filosóficos ou teológicos), cuja extração concerne apenas ao intelecto. Essa lei não sofre exceção, e apenas expressa a natureza das coisas. A psicologia implica lógica, assim como a pele e o músculo implicam o esqueleto: eles movem a si mesmos e outras coisas, mas de acordo com a estrutura e articulações da armação óssea, por mais invisível que seja. Da mesma forma, a fé profundamente sentida do luteranismo, uma espécie de existencialismo radical de nossa relação com Cristo, esse vinho que parece tão forte, tão intoxicante, contém e veicula uma certa doutrina teológica, uma doutrina que só pode levar àquelas consequências que dela decorrem logicamente.
Ora, ainda que inteligível, essa doutrina é falsa e contraditória. Mais uma vez, isso não tem a ver com as intenções de Lutero, mas com a realidade objetiva do princípio de sua abordagem. Pode-se de fato dispensar a teologia e recusar-se a ser submetido à sua jurisdição, negar seu exercício. Mas a prova da obscuridade dessa ideia é que, ainda hoje após quinhentos anos de análise e discussão, aqueles que estudam Lutero continuam a se perguntar sobre sua significação. O que Lutero quis dizer? Que interpretação deveria ser dada ao princípio fundador e decisivo da Reforma?
Essencialmente, a tese luterana surgiu de uma agonia incontrolável, a agonia da danação. O monge Lutero, durante crises seguramente aterrorizantes de horror indizível, experimentou a sensação de que nenhuma obra, por mais meritória em si, pode apaziguar a justiça divina de Deus: devido ao pecado onipresente, nem jejuns, mortificações, atos de caridade, missas ou orações têm o menor valor. A natureza do homem é tão thoroughly corrupta que suas melhores ações, mesmo as mais santas, são intrinsecamente manchadas, viciosas, diabólicas. Objetivamente, Lutero estava na posição de um homem com uma vitalidade poderosa (e portanto sem tendências suicidas), mas sofrendo de uma neurose obsessiva ligada a um auto-ódio agressivo e mórbido. Para escapar dessa obsessão, ele elaborou um ‘mental set’ que lhe permitiu neutralizar seu medo pânico do inferno, sem contudo abolir o desprezo odioso e violento por sua própria natureza. Esse mental set mais ou menos consciente abruptamente cristalizou-se (em 1518?), ao ler uma passagem frequentemente considerada da epístola aos Romanos (1:17), quando seu significado subitamente começou a lhe surgir: ‘A justiça de Deus se revela no Evangelho, como está escrito: o justo viverá pela fé.’ Essa justiça, ele subitamente entendeu, não é uma justiça-ação (fazer justiça, julgar), mas uma justiça-estado (ser justo).
Tendo ganho essa insight, eis o raciocínio de Lutero. A justiça-estado (ou justiça passiva) é a de Cristo, é o próprio Cristo, nas palavras de São Paulo. Como ela é conferida a nós? Por penetração interior? Mas então eu mesmo seria justo! Ora isso é impossível pois eu sou pecado. Não, ela é imputada a nós de fora: a redenção de Cristo, pela qual fomos justificados, nos deixa permanecer inveterados pecadores enquanto vivemos; ela simplesmente nos cobre como um manto e nos salva da danação concedendo, não que não pequemos mais, mas apenas que nossos pecados não serão mais imputados como crimes. É por isso que é normal que as obras não sirvam para nada. Afirmar por um momento que uma obra humana possa ter valor para uma co-operação redentora, a chamada obra sacrificial da Missa acima de tudo, é equivalente a negar a crucificação: isso é uma blasfêmia abominável, e equivale a uma falta de fé em Jesus Cristo somente. Tal é o primeiro ponto.
Agora eu sei que a vergonha insuperável de minha natureza não é a prova de minha danação, pois Cristo nos salva ‘apesar de nós mesmos’, de fora. Ainda, para curar a obsessão com o inferno, preciso aplicar essa certeza a mim mesmo. Como sei que eu, eu mesmo, estou salvo? Que sinal infalível atesta isso? São Paulo nos diz: é a fé. Deus não pede nada à criatura, aquele pecador imundo, mas apenas uma coisa: fé em Jesus Cristo. Se tenho fé, estou salvo. O fato da fé, dentro de mim, é a prova de que Jesus Cristo de fato me salvou, eu mesmo. Mas ter fé é acreditar precisamente que só Jesus Cristo me salva, e portanto rejeitar com horror toda fé em obras, caso contrário não acreditaria em Jesus Cristo, mas em mim mesmo. Assim, a justificação forense (exterior) e o sinal de fé da justificação se unem e se condicionam mutuamente. Tal é o segundo ponto.
Que Jesus Cristo sozinho nos salva sempre foi conhecido e ensinado pela Igreja; mas que São Paulo expõe claramente a justificação forense e o sinal de fé é simplesmente insustentável. A exegese de Lutero é falsa ou, antes, aberrante. Aqui me referirei a tudo o que disse em La charité profanée. A ideia de que a natureza humana, em sua própria substância, permanece completamente fora da graça da redenção de modo que somos ao mesmo tempo pecadores e justos (‘simul peccator et justus’) é puramente luterana. O que Lutero nega é que Cristo, que é de fato nossa Justiça, aquele em quem e por quem fomos restaurados ao estado de justiça original e mesmo a um estado mais admirável, faça sua justiça ‘habitar’ dentro de nós, infundindo-a em nosso próprio ser: ‘O cristão é justo e santo com uma santidade estrangeira ou extrínseca; ele é justo pela misericórdia e pela graça de Deus. Essa misericórdia e essa graça não estão no homem; elas não são um habitus ou uma qualidade no coração.’ Em suma, essa justiça não é inerente à substância de nosso ser, mas permanece na superfície, ‘como uma pintura em uma parede’, nos diz Lutero.
Ora, sem falar de São Pedro, que nos declara ‘participantes da natureza divina’, a concepção paulina de nossa participação batismal na morte de Cristo, o tema da transformação do homem velho no novo, o tema da comunicação do Espírito Santo, que ‘se une ao espírito do homem’, pois ‘quem se une ao Senhor é um só espírito’ (I Cor. 6:17), todos esses e muitos outros textos demonstram claramente que a Escritura ignora a tese luterana em seus specifics.
Mas, finalmente, precisamos chegar às consequências filosófico-teológicas. Basicamente, e quaisquer que tenham sido suas boas intenções, essa tese repousa sobre a incompatibilidade radical da natureza e da graça, ou antes sobre a oposição irreductível e a exclusão mútua das ordens natural e sobrenatural, que a graça vem reconciliar especificamente, já que essa graça sempre flui da única hipóstase de Cristo em que a divindade foi unida à humanidade. Aqui, ao contrário, a supernatureza só pode trabalhar destruindo a natureza, e é muito difícil para nós considerar tal tese outra coisa senão ‘dia-bólica’, na medida em que realiza uma obra divisiva (dia-ballein). No coração de todo cristão ela introduz uma separação insuperável entre o que decorre da criatura e o que decorre do ato redentor. Ela fecha a natureza sobre si mesma, condenando-a ao pecado, e, com o mesmo golpe, fecha a porta do céu que Cristo nos abriu. Por decreto luterano, a graça divina foi proibida de lançar raízes em nossa terra humana. Doravante nosso mundo é esvaziado do sagrado. O simbolismo (sym-ballein) - no qual o criado e o Incriado são esposados, em imitação de Maria, Esposa do Espírito Santo, que ‘reúne’ (sym-ballein, Lc. 1:19) todas as coisas ‘em seu coração’ - é expulso de nossa existência cristã em nome da honra de Deus. Nenhuma forma terrestre, nenhuma obra humana, nenhum ato é portador da graça de Cristo - um Cristo ciumento e ganancioso que não mais confia a força de seu amor redentor à fraqueza ou à dignidade de sua nobre criatura, nem, através do intermediário de um consagrador humano, às próprias coisas. O que desaparece dessa maneira é a ‘imanência da graça’ de Cristo Redentor em sua criação; isto é, a ordem sacramental e ritual, a ordem eclesial, o Corpo Místico, todo esse sacralização do cosmos terrestre e humano que é a Encarnação prolongada, espalhada e comunicada, como imagem dos primeiros frutos do ‘novo céu e da nova terra’.
Sem dúvida nos dirão que uma completa profanação da ordem natural é correlativa a uma interiorização de nossa relação com Cristo, já que o único sinal terrestre do divino que resta é a fé, e o que se perdeu ali é ganho aqui. No entanto, precisamos ser precisos. A fé luterana é uma realidade sobrenatural na alma humana? Um habitus? A resposta não é fácil, pois os textos são contraditórios. Mas nenhuma dúvida é possível quanto à tendência geral de sua concepção. O que é enfatizado aqui quase exclusivamente é a dimensão humana da fé, a fé como ato humano, a vontade humana dentro da misericórdia. É uma fé sentida pelo crente, fé reduzida à experiência subjetiva da fé e não propriamente uma fé teológica, na qual a realidade espiritual de modo algum é perceptível à consciência ordinária. Ora, se a graça permanece exterior ao homem, não permanecemos exteriores à graça? Daí a necessidade de Lutero de superenfatizar a dimensão volitiva e sentimental do ato de fé; em suma, de proceder a uma psicologização do espiritual. Essa psicologização parece característica de todo o luteranismo, particularmente sua deformação dos temas do misticismo de Tauler. O que é com os místicos espiritual, isto é, ontológico (daí o nada da criatura em relação ao Ser Divino), com o luteranismo se torna miséria, infelicidade, desespero, danação.
Finalmente, após as consequências teológicas e espirituais, voltamo-nos para as consequências filosóficas. A exclusão mútua das ordens natural e sobrenatural não é apenas ruinos para a sacralidade do cosmos e a interioridade espiritual, é igualmente destrutiva a longo prazo da realidade humana como tal; pois a consistência ontológica do humano é estabelecida e assegurada apenas por sua ordenação ao divino. Devemos sempre retornar ao testemunho do Gênesis: a natureza do ser humano é sua deiformidade. Deiforme por essência, devemos cumprir nosso destino ontológico como imagem de Deus e nos tornarmos semelhança, pois, como nos informa São Paulo, ‘nós somos da raça de Deus’ (Atos 17:29). Sem dúvida a natureza humana não pode por si mesma - nem mesmo com Adão - realizar sua perfeição sobrenatural. Mas é solely essa possível relação com uma realização futura que define e garante nossa realidade presente. É por isso que não há humanismo puramente naturalista. Reduzida a si mesma, a natureza humana de modo algum é um ponto de partida. Se o homem não se volta para Deus, ele buscará sua causa final e o princípio para sua ilusória completude no mundo e na matéria.
Profanação do mundo, psicologização do Espírito, secularização do ser humano, tais são as três consequências inelutáveis inscritas no princípio fundador do luteranismo. A força residual de uma sensibilidade profundamente cristã impediu Lutero de percebê-las, e seu desenvolvimento dentro do protestantismo seria sufocado diretamente em virtude do Evangelho e indiretamente pelo exemplo estimulante de um catolicismo intacto. Mas, com os esforços dos neo-luteranos católicos, não estariam essas últimas salvaguardas hoje em processo de colapso?
Central ao drama de Lutero é uma aversão insuperável com respeito à sua própria natureza humana, que foi criada por Deus à sua imagem, mas consignada por Lutero à total corrupção. Sem dúvida, essa aversão era apenas o outro lado da fascinação que sua própria individualidade exercia sobre ele, mesmo em seus aspectos mais grosseiros: o segredo de um homem poderoso e atormentado, capaz de ternura por uma flor, um pássaro, uma criança, mas que nunca conseguiu humildemente ter piedade de si mesmo e olhar para seu próprio pobre coração com a misericórdia de Deus. Aqui, com a exclusão de uma natureza inteiramente decaída da graça, o sentido do sobrenatural não é mais nutrido, e ainda essa mesma natureza é reivindicada agressivamente no orgulho de sua finitude.