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id da página: 129 Eric Baret – Do Abandono – Demanda Baret

Baret Demanda

Eric Baret – Do Abandono – Demanda


BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004

Que sejamos nós mesmos sem expectativa sim, mas as solicitações vindas do exterior?

É preciso amá-las. É normal que seu cão espere sua refeição, que seu amante, seu marido, seu filho, seu pai, seu patrão, seu empregado esperem algo. Mas vamos nos dar conta de que não estamos aí para responder às expectativas dos outros. Estamos aí, eventualmente, para estimular a não expectativa em nosso entorno. Às vezes nosso ambiente estará satisfeito, às vezes estará decepcionado: é preciso respeitar isso, ele precisa dos dois. Seu filho precisa que você o satisfaça e que o decepcione; sua maturidade depende dos dois, do sim e do não. Seu amigo precisa da mesma coisa, seu dromedário também.

Nenhuma culpa a ter. Não estamos aí para responder às expectativas de nosso vizinho. Sempre há um vizinho que nos achará grande demais, outro que nos achará pequeno demais. Respeitemos cada um. Para alguns pareceremos simpáticos, para outros antipáticos: todos têm razão; segundo seu estado afetivo, nos veem de uma maneira ou de outra.

Em um momento dado, não nos alimentamos mais da projeção de nosso vizinho. Respeitamo-lo em seu ódio como em seu amor. É uma projeção, ele só fala consigo mesmo. Compreendemos intimamente por que, quando nos vê, ele sente tanto ódio e tem vontade de nos estrangular ou tanto amor e tem vontade de nos saltar em cima. Ele não pode fazer otherwise. É como os cães que querem nos morder ou nos lamber. Não estamos aí para ensinar ao cão que quer nos morder que ele não deve fazê-lo, nem para explicar àquele que nos lambe que ele projeta uma segurança em nós e que seria melhor encontrá-la em si mesmo. Respeitamos o cão que vê essa segurança em nós e nos lambe como aquele que quer nos degolar por medo. Agimos em função da situação. Por respeito.

Se não temos problema conosco mesmos, não teremos nenhum com a sociedade. A sociedade é clara, perfeita exceto quando se vive na expectativa, na intenção. Aí, há conflito.

Enquanto quisermos que o ambiente seja diferente, a insatisfação permanece. Que meu marido se torne exatamente o que desejo dele, no dia seguinte outra coisa faltará mesmo assim... O que peço a meu marido, a meu camelo, sou eu mesma. Isso, nenhum camelo pode me dar. No instante em que não espero mais nada de coisa alguma, inclusive de mim mesma, realizo que escutar é minha segurança, meu prazer, minha satisfação. Não preciso mais que me escutem, que me amem ou me detestem; compreendo, respeito a maneira como o mundo me vê – ele tem suas razões.

O ambiente não cria nenhum choque psicológico. Se ele suscita em mim a menor dificuldade, é porque carrego uma forma de julgamento: volto para mim mesma. Em vez de viver a realidade, penso que o ambiente deveria ser diferente. O ambiente é o que é. Não estar de acordo com a realidade é ter um problema: não com ela, mas consigo.

Olhar claramente em si. Perceber que seu marido, seu patrão, seu cão não podem fazer otherwise do que sentir o que sentem, agir como agem. Nesse respeito, esse amor da realidade, reintegro a disponibilidade.