BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004
Se não há realização, para que me serve minha consciência?
A Consciência não serve para nada. Não é um objeto destinado a nos estimular psicologicamente. Não é um carro vermelho, um marido ou um cão. Ela não está aí para servir: é nossa emoção fundamental, ela nos impele a nos buscarmos constantemente através das situações.
"Consciência": essa palavra é mal compreendida. No Oriente, fala-se de "consciência sem objeto". Não se trata de "ser consciente".
A consciência das pessoas que querem morrer "conscientemente" não tem importância. O que se realiza no instante da morte é de uma ordem totalmente outra. Morrer conscientemente depende da capacidade funcional de nosso cérebro. Se recebermos uma pancada na cabeça, não morreremos conscientemente e não nos faltará nada.
A consciência de algo é uma consciência funcional. É como uma perna para andar. Essa consciência não tem substância, é uma função. A Consciência é outra coisa.
Se conseguir estar em acordo com a Consciência, posso atingir a essência?
Tente um instante estar em desacordo com sua Consciência...
O que mais poderíamos ser senão nossa Consciência? Não somos uma zebra vermelha situada fora da Consciência, para nos colocarmos em acordo com ela. Essa consciência somos nós mesmos quando paramos de buscar seja lá o que for, quando cessamos de pretender ter o poder de estar em acordo ou desacordo. Em nosso silêncio, entre dois pensamentos, duas percepções, no sono profundo e em todos os tempos – porque o tempo aparece na consciência –, nossa vida está em acordo perfeito com a Consciência.
Suprimamos todo comentário ideológico sobre nossa vida. Nosso saber sobre a vida nos impede de ver o quanto ela é perfeita. Não há nada a mudar nela. Nossa vida muda, é a vida. Não temos que nos colocar em acordo com coisa alguma. Senão sempre nos sentiremos em desacordo.
Querer estar em acordo é um medo. Medo de quê? A causa do medo é imaginária. Em um momento dado, cessamos de tremer. O que se apresenta é o acordo. Quando não o qualifico mais de positivo ou negativo, de conquista ou fracasso, o que se apresenta não é outro senão eu mesmo, minha ressonância: aí, há acordo verdadeiro. Não é um acordo de um sujeito para um objeto, é um acordo de unidade, sem separação. Um acordo com nosso corpo quando sofre ou funciona, com a vida no que ela nos oferece. Sem demanda de realizar, de receber seja lá o que for.
É extraordinário escutar. Isso transcende o que se escuta. O acordo profundo da vida consiste em escutar.
Estar um instante sem demanda, sem expectativa, é a coisa mais simples que há. Isso nos liga com todos os seres, todos os mundos. Aí, há simbiose.
Se tentarmos nos colocar em acordo com seja lá o que for, nos colocamos em acordo com uma ideologia: se somos muçulmanos, nos colocamos em acordo com a sharia ou nossa tarika; se somos budistas, nos colocamos em acordo com o Sangha ou o Dharma; se somos ateus, respeitamos nossos conceitos... Esse acordo tem pouco valor.
É preciso se colocar em acordo com o que se apresenta no instante. Mas isso, não podemos fazer. É uma graça que nos chama e que recusamos a cada instante porque queremos estar em acordo com o instante seguinte... Ver o mecanismo.
A emoção que surge em mim, é com ela que devo estar em acordo. Não há nada mais.