Esta tarefa sublime que dissolve a dor Esta causa de alegria para os que erram pelo mundo Esta preciosa atitude, a jóia da mente, Como poderia ser avaliada ou aquilatada? SHANTIDEVA, Bodhicharyavatara, I, 26
Faze um templo dos muros da cadeia, Prendendo a imensidade eterna e viva No círculo de luz da tua ideia. ANTERO DE QUENTAL, Soneto A Ideia, IV
Antero não encarou o Budismo como uma religião de que se tenha tornado adepto, ou uma filosofia constringente e impeditiva da originalidade, e essa talvez seja uma das maiores fontes de equívoco em relação à interpretação do seu pensamento. Nesse sentido, Antero não seria budista, como não seria kantiano, nem aristotélico, nem platónico, ou seja lá o que for que o tornasse tributário duma visão sectária, parcelar, limitativa em termos existenciais.
Que este texto, se algum mérito tiver, possa ser útil, ainda que de forma ínfima, à suprema missão de libertar todos os seres sencientes do sofrimento e da escravidão do apego.
É no âmbito desta reflexão em torno do Absoluto que a relação de Antero com o Budismo vai crescer em importância, ocupando, progressivamente o centro do furacão desta vida tão difícil, tão corajosamente assumida, tão incompreendida pelos seus contemporâneos. Dizer que Antero foi budista é não dizer quase nada, pois há que compreender que razões o terão aproximado do Budismo e o terão levado a estudar de forma sistemática e profunda, com base nas fontes mais actualizadas e cientificamente estabelecidas, não só o Budismo, mas a filosofia oriental. A relação com o Budismo é o fio condutor que nos permite reconstruir os meandros do pensamento anteriano e alcançar a sua visão do universo, do homem e do absoluto.
Antero nesta demanda incessante pelo outro do Ocidente, visto que compreendeu que as aporias com que a civilização ocidental se debatia, e ainda debate hoje, depois de duas guerras mundiais e da instauração duma mundividência centrada na ideia de crise insuperável, demandavam uma reconfiguração radical do viver e do pensar, acabou por se ligar à ampla corrente mito-poética que anima a cultura portuguesa e lhe dá um sentido universalista e integrador.
É isto que nos permite assumir a demanda anteriana como uma das mais profundas metafísicas do Amor irrestrito e uma das mais abrangentes provações do Mistério, ao nível do que podemos encontrar em Teixeira de Pascoaes e em Fernando Pessoa, mas com um factor distintivo que a torna única: o facto de naquela época a cultura portuguesa parecer exilada de si própria, ávida de se ver ao espelho dos movimentos intelectuais que tiveram o seu epicentro em França e na Alemanha. E aqui há algo que merece uma profunda meditação: vê-se frequentemente a geração de 70 como uma geração de estrangeirados, de intelectuais que procuraram levar Portugal a ligar-se aos movimentos culturais mais profundos que alimentavam o progresso civilizacional e económico da Europa. E isso é verdade, mas em Antero há algo mais: a sua internacionalização através das traduções dos sonetos, em especial a tradução alemã, pelo punho de Wilhelm Storck, o tradutor de Camões na língua de Goethe, assumiu um carácter inovador: tratava-se de difundir a cultura portuguesa no estrangeiro, abandonando o servilismo intelectual, numa tentativa de estabelecer um diálogo intercultural assente na promoção da paz e de uma paridade cultural, capaz de dissolver as nuvens de desgraça que pairavam sobre a Europa. E, de facto, Antero era um dos poucos intelectuais portugueses que estaria à altura dessa “missão”, uma vez que é um dos raros que, assumindo a difícil tarefa de pensar em Português e em Portugal, se elevaram à categoria de cidadãos do mundo.
Posto isto, podemos concluir que o assumir do Absoluto em cada momento da vida, o misticismo activo, mais não é do que o entrar na via da consciência iluminada que, como o graal das demandas ultramarinas, o barco de velas enfunadas nas porcelas do Oceano visava a união do Ocidente e do Oriente, do fim e do princípio, para que o mundo se consumasse como o reencontrado paraíso de que a humanidade fugira para poder haver pecado e história, acabaria por ser o amplexo de luz capaz de transmutar a natureza transiente dos seres afastados da sua, íntima mas ignorada, Liberdade:
“Faze um templo dos muros da cadeia, Prendendo a imensidade eterna e viva No círculo de luz da tua ideia.”
A renúncia ao egoísmo faz nascer uma mente equânime, transbordante de compaixão, pulsante de energias transmutadoras: “O mundo moral só subsiste por esta renúncia. Ela enche de intrepidez o coração dos heróis, de constância a vontade dos justos, de unção a alma dos santos. Ela dá aos simples a candura e a graça: dá aos humildes a dedicação sem alardes: a uns e outros o perfume da virtude que se ignora. Ela é a inspiradora secreta da grande arte e do grande pensamento. <...> Superior ao destino, vencedora da fatalidade, mais profunda do que toda a ciência e toda a especulação, só ela torna patente o íntimo segredo das coisas e é, em si mesma, a única verdade evidente, o único saber sem dúvidas nem obscuridades. Ela vence a morte. porque faz compreender a significação do êxito final e apreciar o quanto ele vale.”
( Paulo Feitais Professor do Ensino Secundário )